Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Livros esquizofrênicos.


Por Clarisse Muniz.


Em minha segunda contribuição aqui para o blog vou abordar uma questão bastante curiosa sobre algo que venho notado, principalmente na Amazon: os livros mal categorizados.


Conheço alguns escritores que espumam diante desse tipo de coisa, afinal de contas como pode-se levar a sério um autor que é incapaz de saber, ao menos, sobre que gênero escreve?

E devo concordar com eles, porque dá a impressão de que em algumas situações os autores dessas obras, ou seus editores, não sei, agem de má fé.

Não vou generalizar dizendo que todos são mal intencionados, agindo com a intenção de ludibriar os leitores. Creio que alguns assim o fazem movidos por mera ingenuidade ou até mesmo ignorância, mas que há uma certa ausência de tato, isso é evidente.

Foi daí que tirei o título do texto: livros esquizofrênicos, porque embora digam ser uma coisa, são outra, ou ainda outra, dependendo do contexto em que está incluído.

Poderia ser, ainda, "livros mau-caráter", quem sabe?

Para que você possa entender melhor sobre o que estou escrevendo tomo como exemplo as listas de mais vendidos da Amazon. Peço que acesse esse link que o levará à página da Amazon, e em seguida prosseguirei.

Sim, é a lista dos e-books mais vendidos dentro do gênero horror na Amazon.

Surpresa seria se os mais vendidos não fossem os de autores já consagrados como Stephen King, Bram Stoker, André Vianco e etc. Entretanto pode-se notar que na lista há livros que estão fora de esquadro, ou seja, na categoria errada.

Não vou citar títulos ou autores aqui, poque minha intenção não é prejudicar ninguém, mas sim, apontar esse "erro", então prossiga observando a lista.

Só pela capa já se percebe que alguns livros já não se encaixam muito bem na categoria horror, concorda?

Certo, certo, não julguemos um livro pela capa, mas atentemo-nos então às sinopses dos mesmos.

Elas comprovam minha suspeita: cheiram a tudo, menos a horror.

Convenhamos que o gênero horror, principalmente no que se refere à literatura nacional, é bastante marginalizado, tanto por não cair na graça do público quanto pela falta de qualidade de muitos autores do gênero, ou alguém discorda?

Esse asco que o público nutre pelo horror nacional se enraizou graças às obras cinematográficas terríveis como as do José Mogica Marins e seu famigerado Zé do Caixão ou, mais recentemente, ao indigerível Mangue Negro, e se perpetua até a literatura, afinal de contas, o público tem a mania de generalizar.

Então que tal a ideia de escrever um livro, com leves "pinceladas" de horror e categorizá-lo assim na Amazon? Dessa maneira ele fará frente aos livros genuínos de horror, aqueles que fazem você dormir de luzes acesas e mije na cama por medo de ir ao banheiro de madrugada. Como são totalmente água com açúcar e possui a maioria dos ingredientes que agradam aos leitores ele obterá uma venda levemente superior aos concorrentes e assim ficará na lista dos mais vendidos.

Entendeu a lógica?

Foi como escrevi no início, não vou generalizar, mas sou obrigada a concluir que aqueles que agem de má fé nesse sentido pensam exatamente dessa forma.

A moda agora são os tais "romances hot", ou "literatura hot", que nada tem a ver com a literatura fantástica, mas que cada dia mais atrai a atenção do público feminino. Então o autor escreve um livro nesse estilo, insere um ou dois personagens (na esmagadora maioria das vezes, um vampiro) e então o coloca como sendo "horror" na Amazon.

É justo? Não.

Mas, por que não?

Basta ler a saga Crepúsculo (ou assistir aos filmes) e entenderá o motivo de não ser.

Essas obras da Stephenie Meyer tem em seu enredo vampiros e lobisomens, mas quem em sã consciência pode dizer que são obras de horror? 

É o mesmo que acontece com as obras desses autores. Não é porque em suas histórias existam vampiros ou algumas mortes que elas se encaixam no gênero.

A saga completa de Crepúsculo está disponível na Amazon e veja em que categoria ela está: Romance. Mas qual autor quer bater de frente com um best seller e ver suas obras mofando no final da lista de mais vendidos?

Acho que já ficou suficientemente claro o ponto ao qual quero chegar.

Não vou generalizar, como já escrevi, e dizer que esses autores agem de má fé só para terem vantagem sobre os livros de horror. Muitos desses autores, pelo que pude verificar, são pessoas totalmente desprovidas de "feeling" literário ou editorial para entender que seus livros não são de horror, só por terem personagens míticos. São assistentes administrativos e donas de casa que, cansados da enfadonha vida que levam, se propõem a escrever e diante da facilidade de auto-publicação que a Amazon oferece jogam lá seus livros, em categorias errôneas.

Se o leitor que busca um livro de horror (ainda que diante das capas e das sinopses) adquirir uma obra dessas provavelmente ficará muito puto porque não encontrará nada que lhes transmita medo.

Quer ler um bom livro de horror? A âmbito nacional temos bons nomes, além do André Vianco, procure ler alguma coisa do César Bravo, do Oscar Mendes Filho ou do Alfer Medeiros, e certamente não haverá arrependimentos.

Confesso que me senti tentada em citar esses títulos mal categorizados, mas deixo por conta do "feeling" de quem está lendo esse texto descobrir a quais me refiro, mas caso haja dificuldade em reconhecê-los, envie-nos um e-mail.

Entre em contato: litfanbr@gmail.com




5 comentários:

  1. O pessoal tem a ideia de que, se o livro estiver entre os mais vendidos, venderá mais.
    O pior é que isso é verdade. Muita gente não sabre comprar livros, e vão direto nos mais vendidos para saber o que estes têm de bom.

    E para os autores e editores picaretas, vale todas as artimanhas para colocar o livro entre os mais vendidos. Desde comprar o próprio livro várias vezes, até o posicionamento "estratégico" nas categorias.

    Quem perde é sempre o leitor e a literatura nacional. Mas o que há de se fazer? Os leitores precisam entender que os livros que estão entre os mais vendidos não são necessariamente os melhores.

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  2. Não foi difícil reconhecer a que trabalhos o texto se refere, pela capa já se reconhece.
    São livros tão ou mais melosos que os crepusculianos, um prato cheio para mulheres mal amadas e donas de casa desocupadas que buscam nesses livros aquele amor que nunca encontraram e que, provavelmente, jamais encontrarão na vida.
    Terror? Nada.
    Estão mais pra romances hot, desses escritos com "uma mão só" do que qualquer outra coisa, mas terror? Piada.

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  3. "Esse asco que o público nutre pelo horror nacional se enraizou graças às obras cinematográficas terríveis como as do José Mogica Marins e seu famigerado Zé do Caixão "

    Sinto, mas nos EUA o Zé do Caixão é cult. Cineastas do peso de Roger Corman já o elogiaram.

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    1. Certo, e porque os gringos elogiam eu sou obrigada a achar que é bom?

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  4. No caso do José Mogica, a qualidade do trabalho está atrelada à categoria que é enquadrado. Mesmo que o produtor não queira, seu trabalho pode ser classificado pelo público como sendo Trash, e desta forma, considerado algo bom.

    Não curto o gênero nem os filmes, mas considero o Zé do Caixão, um bom personagem do horror Trash, bem como considero a importância do trabalho do José Mogica, nas produções audiovisuais nacionais.

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