Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Depois de Ler Drac­con, Reli « O Alqui­mista » e Achei Bom.


Por José Geraldo Gouvêa.



Mui­tas vezes eu lia tex­tos de jovens auto­res nas comu­ni­da­des do Orkut, e mais tarde aqui no Face, e ficava espan­tado com o baixo nível de domí­nio da norma culta. Com o tempo me acos­tu­mei com a ideia de que a escola inclu­siva e uni­ver­sal que existe hoje não con­se­gue for­mar um usuá­rio pleno do idi­oma no mesmo tempo de antes, em troca, ela leva mais gente ao fim do cami­nho. Res­pi­rei fundo e me con­for­mei com isso, mesmo sus­pei­tando que algo não somava 100% nessa « conta de chegar ».
Mas ainda me inco­mo­dava ver tanta gente boa sendo igno­rada, sem ter chance de mos­trar seu tra­ba­lho. Me refiro a gente como o Srgio Fer­rari, o Ronaldo Brito Roque, a Ilka Cana­varro, o Felipe Hol­loway e outros ami­gos que trago desde os tem­pos de meus pri­mei­ros pas­sos no Orkut. Era difí­cil enten­der que não hou­vesse como vin­ga­rem auto­res pron­tos e aca­ba­dos, como o Hol­loway, que tem um estilo irô­nico impa­gá­vel, ou a Ilka, com suas des­cri­ções per­fei­tas e exas­pe­ran­tes, ou o Ronaldo com sua nar­ra­tiva colo­quial nihi­lista, ou o sur­re­a­lismo do Srgio Fer­rari, que tran­si­tava entre a lite­ra­tura de fic­ção cien­tí­fica, o dadaísmo e Mon­teiro Lobato.
Mas com o tempo as visões se foram cla­re­ando nas patas do meu cavalo, como dizia o meu xará Vandré…
Aca­bei de crer que não há mais espaço para bons auto­res, tal como não há para bons músi­cos. Auto­res que sabem escre­ver NÃO SERÃO LIDOS. Ou, como radi­cal­mente disse ao Roque: nin­guém será lido, mas mui­tos serão ven­di­dos (saquem o duplo sentido).
E a razão para isso é sim­ples: « eles » che­ga­ram ao poder. Eu diria incom­pe­ten­tes, mas eles são com­pe­ten­tes em mui­tas coi­sas (ainda que não o sejam em lite­ra­tura): cri­a­ção de redes, cul­tivo de ami­za­des úteis, publi­ci­dade, mar­ke­ting, etc. Houve um tempo em que os edi­to­res tapa­vam o nariz e publi­ca­vam Paulo Coe­lho, por­que ele ven­dia e as edi­to­ras pre­ci­sa­vam da grana. Com o tempo o mer­cado edi­to­rial foi se enchendo de paulo-​​coelhos e eles estão subs­ti­tuindo os edi­to­res por­que con­se­guem publi­car melhor os livros que ven­dem, já que não pre­ci­sam tapar o nariz para se apro­xi­ma­rem deles.
Estou lendo uma obra de um famoso autor, que tam­bém é edi­tor e é tam­bém uma pes­soa pode­rosa e influ­ente, que come­çou em edi­tora pequena e agora está em uma das mai­o­res casas edi­to­ras do país, edi­tando e « dando a sua cara » a toda uma série de obras. E a lei­tura desta obra me deixa estar­re­cido e me fez crer que a minha iro­nia dita ao Roque era até otimista.
O cara escreve pior do que mui­tos mem­bros dos gru­pos lite­rá­rios ama­do­res do Face­book. Seu texto é con­fuso, didá­tico, repe­ti­tivo, pala­vroso, sem ritmo e sem beleza. Ape­sar de escre­ver « fan­ta­sia » ele não deixa espaço à ima­gi­na­ção do lei­tor, ele « cas­tra » o leitor.
Dizer que seu texto e con­fuso é ser eufe­mís­tico. Ele perde um pará­grafo quase inteiro dis­cu­tindo se afi­nal exis­tem deu­ses ou não. Pri­meiro diz que não, depois diz que sim, depois diz que não se tem cer­teza, depois diz que sim, exis­tem, mas não são cul­tu­a­dos. Toda uma mas­tur­ba­ção men­tal que pode­ria ser dita numa frase: « Os deu­ses de … não rece­bem ora­ções, o povo se lem­bra somente dos heróis ». Não ficou nem mais difí­cil e nem mais pedante, só ficou mais claro e mais curto. Acho que isto explica por­que os livros da moda têm tan­tas pági­nas. Não é que tenham assunto.
Dizer que seu texto é repe­ti­tivo é fácil de pro­var. Em qual­quer página do livro pode-​​se con­tar a mesma pala­vra várias vezes. Não falo de pre­po­si­ções ou ver­bos de liga­ção, estou falando de subs­tan­ti­vos e adjetivos.
Ele é tam­bém pala­vroso. Diz que o autor deve pra­ti­car uma lite­ra­tura sim­ples, mas o tama­nho de sua obra pode­ria ser redu­zida em mais de 40% se fos­sem remo­vi­das as repe­ti­ções e as locu­ções. Um exem­plo, até hilá­rio, é onde o seu herói diz que « não dará ênfase ao fra­quejo » (que poha é essa?) em vez de dizer que « não hesi­tará » ou « não fra­que­jará ». Gasta vinte e cinco bytes para dizer o que pode­ria ser dito em 12. E esta é a regra de seu texto: per­der tempo com minú­cias que não ser­vem para nada e dei­xar de des­cre­ver o cená­rio para não « can­sar o lei­tor com des­cri­ções ». Ao mesmo tempo, devas­sar os pen­sa­men­tos de cada per­so­na­gem, sem dar ao lei­tor a chance de ten­tar imaginá-​​los e surpreender-​​se com eles, e ao mesmo tempo usar cená­rios vagos para « dei­xar espaço à ima­gi­na­ção do leitor. »
Quanto mais eu leio a obra de Raphael Drac­con, mais encon­tro moti­vos para me arre­piar os cabe­los. Pobres jovens que leem estes livros bur­ros, e não apren­dem cami­nhos para apre­ciar obras de qua­li­dade do pas­sado E MESMO DO PRESENTE. Pobres de nós auto­res, que temos de sub­me­ter nosso tra­ba­lho a auto­res de fan­ta­sia medi­e­val que fazem seus reis segu­ra­rem « bas­tões de ouro » em vez de cetros! Isso, claro, depois de serem « lan­ça­dos » ao trono (men­tal­mente ima­gino o rei seguro pelos bra­ços e per­nas e ati­rado por seus pajens em cima de um imenso sofá).
Além de tudo isto ele é mal infor­mado. Tenta incluir tudo quanto é cri­a­tura exó­tica e esdrú­xula em sua obra, mas chega a escre­ver errado os nomes des­tas (exem­plo: « lin­che » em vez de « lich », o que equi­vale a escre­ver « lebre­chaum » em vez de « lepre­chaun »). Apa­ren­te­mente o autor NÃO LEU, de fato, as obras que tenta citar e imi­tar, ape­nas lhes pas­sou o olho ou leu o artigo da Wiki­pé­dia. Isso lhe dá uma pseu­do­cul­tura, que não com­bina com o voca­bu­lá­rio raso do texto em geral, como no citado caso do « bas­tão de ouro ».
Outra coisa que me dei­xou espan­tado é que esse autor, ídolo de tan­tos jovens que me cha­mam de arro­gante e con­ven­cido, escreve em um tom de livro didá­tico. Sem­pre que intro­duz uma pala­vra dife­rente, ele a põe em negrito e/​ou dar um jeito de expli­car. Pode pare­cer incrí­vel, mas ele se deu ao tra­ba­lho de expli­car aos lei­to­res o que é « outono » e qual a sua simbologia.
O autor, apa­ren­te­mente, acha que « Pró­logo » é uma dis­ser­ta­ção sobre o livro. Coisa, tal­vez, de quem só leu Tol­kien, e olhe lá. Nor­mal­mente o pró­logo é um pedaço de his­tó­ria que não faz parte da nar­ra­tiva prin­ci­pal mas a ante­cede e ajuda a expli­car. No livro dele, o pró­logo é um aritgo da Wiki­pé­dia expli­cando como é o mundo que ele inven­tou. Eu já disse que ele não deixa o lei­tor pen­sar e muito menos ima­gi­nar? E isso é lite­ra­tura « de fan­ta­sia », gente!
Dizer que o seu texto é sem ritmo e sem beleza é cho­ver no molhado. Sua nar­ra­tiva é um amon­to­ado de luga­res comuns que vão além do ridí­culo. Como dizer que uma per­so­na­gem « assis­tiu de cama­rote » um lobo devo­rar a sua avó. Bem, diga­mos que o uso desta metá­fora des­gas­tada era total­mente ina­pro­pri­ado ao clima, assim como é impró­prio em uma his­tó­ria de fan­ta­sia medi­e­val em que não existe ou exis­ti­ria ciên­cia, falar que a per­so­na­gem era hipo­con­dríaca. Aliás, per­so­na­gens não pre­ci­sam de rótu­los nem diag­nós­ti­cos, pre­ci­sam de ser mos­tra­dos em pala­vras. « Show, don’t tell ».
Uma marca inde­fec­tí­vel dos auto­res que só leem tra­du­ções por­cas de ori­gi­nais ame­ri­ca­nos ou ingle­ses é a difi­cul­dade para dife­ren­ciar os três pre­té­ri­tos — e o refe­rido autor mani­festa isso em cada pará­grafo. De tal forma que fica difí­cil saber se algo acon­te­ceu antes ou durante outra coisa no pas­sado. Mas a mis­tura de tempo ver­bal vai além, mis­tu­rando pre­sente e pre­té­rito em uma mesma frase e logo depois sal­tando ao futuro. É de fazer o cére­bro rodo­piar, e claro que isso « sim­pli­fica » a lei­tura, não é mesmo?
Enfim, a refe­rida obra não é um livro « sim­ples » para jovens adul­tos ini­ci­an­tes na lei­tura. É um livro mal escrito, de auto­ria de uma pes­soa sem cul­tura, que se estende muito mais do que o neces­sá­rio por culpa de uma lin­gua­gem pala­vrosa demais e por um estilo nar­ra­tivo que se incha com minú­cias sem sen­tido, ao mesmo tempo em que sonega ao lei­tor infor­ma­ções rele­van­tes. É um livro tóxico, que pre­senta tudo que há de ruim em nossa lite­ra­tura e faz Paulo Coe­lho pare­cer bom (e um livro de PC, bem revi­sado, é bas­tante legí­vel, por­que o Mago, ape­sar de escre­ver mal, tem boa noção da estru­tura nar­ra­tiva, pelo menos melhor do que a desse Drac­con superstar).
E o autor deste calha­maço, que os ian­ques tão apro­pri­a­da­mente des­cre­vem com o termo « doors­top­per » (segu­ra­dor de porta), é quem decide quem é ou não publi­cado pela edi­tora em que foi tra­ba­lhar. Ele é a régua que nos mede. Esta­mos todos perdidos.
Ora, dirão, você está com inveja por­que ele ganha muito dinheiro escre­vendo! Em pri­meiro lugar: não sei não. Em segundo lugar: se ganhar dinheiro jus­ti­fi­casse tudo nos­sos heróis seriam Judas e Sil­vé­rio dos Reis, não Jesus e Tira­den­tes.
Texto originalmente publicado no blog Letras Elétricas, integralmente.
Entre em contato: litfanbr@gmail.com 

11 comentários:

  1. Ano passado, baixei a amostra E-book de um livro do Draccon, comecei a ler mas desisti muito rápido, justamente por ser uma escrita que martela a minha cabeça. Mas nunca comentei a respeito porque havia lido poucos parágrafos e não estava com paciência de fazer um estudo da obra só pra falar mal.

    Felizmente o José Geraldo Gouvêa poupou o trabalho de muita gente.

    Apesar de concordar com a maioria das colocações (ou todas), não tenho o que falar da obra do Draccon porque não li. Mas assisti a uma palestra onde ele falou sobre o seu trabalho, durante a Bienal do Livro em Pernambuco no ano de 2013.

    Não é preciso muito para perceber que ele tem talento e enorme preparo no que diz respeito ao trato com o público. Sempre se esquivando de perguntas mais complexas com estórias comoventes ou engraçadas, e roubando completamente a cena com uma linguagem voltada completamente para o público jovem, que na ocasião, lotava o auditório.

    Mas isso é lógico. A maioria estava lá para vê-lo, e o que mais ele poderia fazer a não ser apresentar um show digno de apresentações teatrais, de forma a deixar o público maravilhado sem de fato responder nenhuma pergunta de forma objetiva?

    E esta postagem também nos leva a refletir sobre o peso que as obras estrangeiras, muitas vezes mal traduzidas têm na formação dos nossos autores.
    São muitos os exemplos de obras que apesar de possuírem boas ideias, são muito mal escritas. E uma inclusive virou postagem em uma série que chamo: "Desisti de ler". Onde muitos apontamentos aqui feitos, batem com o que eu mencionei lá.

    Caso alguém esteja interessado, segue o link:
    http://diariodekalyn.blogspot.com.br/2014/05/desisti-de-ler-2-idade-do-sangue-agnus.html

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  2. Mas qual seria esse livro do Draccon, tão tosco?

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  3. O que esperar de um cara que tem como próximo livro, algo do naipe da sinopse abaixo?
    Tenho a nítida impressão de que esse tal Dracum não é NADA sem referências a outras obras.

    Um soldado de elite do exército americano desaparecido em uma missão no Afeganistão.
    Uma africana guerrilheira crescida em meio a conflitos étnicos de Ruanda.
    Uma garçonete irlandesa praticante de artes marciais mistas.
    Um hacker brasileiro descendente de orientais.
    Um dublê francês mestre em Parkour.
    Cinco realidades distintas.
    Um fenômeno desconhecido faz cinco pessoas, sem qualquer conexão e espalhadas pelo planeta Terra, acordarem em diferentes regiões de uma realidade devastada por um império de reptilianos e assolada pela escravidão. Os cinco iniciam uma jornada em busca de respostas para sobreviverem no centro de uma guerra envolvendo criaturas fantásticas e demônios dispostos a invocar perigosos seres abissais para servirem a seus propósitos.
    Porém uma entidade pretende conectar o destino dos cinco humanos e armá-los com uma tecnologia construída à base de metal-vivo, magia e sangue de dragões. Uma tecnologia jamais vista naquela ou em qualquer outra dimensão, capaz de gerar heróis de metal.
    Batalhas empolgantes, romance e magia. Esse é o universo épico de Cemitérios de Dragões, inspirado em uma visão adulta e sombria das antigas séries Tokusatsu, como Jaspion, Changeman, Flashman, Ultraman e tantas outras, que marcaram a infância de toda uma geração

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  4. Inspirado em uma visão adulta e sombria das antigas séries Jaspion, Changeman, Flashman e Ultraman ...Tenho certeza que agora vai !

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    1. "Visão adulta e sombria das antigas séries de Tokusatsu"...

      PORRA, TÁ DE SACANAGEM?

      Os tokusatsus eram (e até hoje são) feito visando o público INFANTIL, e Dracon se inspira nisso? Que merda, véio....

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  5. Sem dúvidas é o Latino da Litfan brasileira!

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  6. O livro é a trilogia "Dragões de Éter".

    Não li tudo, mas até onde li não se fala em dragões. Passarim me contou que não há dragões nesses livros. Ainda estou checando. Com cuidado, no máximo uma ou duas páginas por dia, seguidas de doses cavalares de Eça de Queirós e Philip K.Dick.

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  7. O nome do livro é Dragões de Éter porque somente cheirando muito Éter o cara consegue ler essa merda até o fim! (Isso após algumas convulsões) kkkkkkkkkkkkkkkkk

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  8. Tiago Toy, o escritor pornstar, devia submeter alguma "obra" ao Draccon. Ambos são mais preocupados com a aparência do que com seus escritos. Combinam em gênero, número, grau e mediocridade.

    Nunca li um texto tão 'no ponto'.

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  9. Sim, você ESTÁ com inveja dele. Seja por ele ganhar dinheiro ou pelos livros dele serem lidos aos montes. O tipo de crítica que você faz é vazia, mesquinha. Apontar que o Prólogo tem que ser isso ou aquilo, atesta que sua cultura literária é rasa como um pires. Dizer que o livro dele é ruim porque ele fala linche ao invés de lich ou que o rei da terra que ele criou usa bastão ao invés de cetro é no mínimo babaquice. Se querem uma Literatura Fantástica Brasileira que preste, façam vocês também críticas que prestem. Ninguém tem que idolatrar o Dracoon porque ele é vendido, agora se você se propôs a criticá-lo, leia e faça uma crítica razoável.

    P.S. Vê-se que, apesar disso, o nível do blog tem aumentado. Pelo menos agora também peitam figura de maior projeção, ao invés de levar adiante a ridícula e estéril cruzada contra o kaótico.

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  10. Draccon faz sucesso mais pela oratória e carisma do que pela qualidade do que escreve.
    Mas em uma coisa temos que concordar, o cara tá "comendo" bem.

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