Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Bienal de São Paulo: sucesso fake.



Por Clarisse Muniz.


Minha primeira matéria para o LitFanBR será sobre o assunto do momento no meio literário: a Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, que se encerra hoje.


Gostaria muito de dizer que minha experiência em comparecer ao evento no dia 22 tivesse sido agradável, mas não posso fazer isso.

Não ficarei reclamando da multidão que abarrotava os corredores e da desorganização generalizada do evento, qualquer blogueiro já divagou a respeito e minha matéria seria somente mais uma na multidão.

Só gostaria de salientar, sobre esse assunto, que o pandemônio provavelmente se deu pelo fato de os organizadores não esperarem uma visitação tão grande, o que acabou gerando tanta bagunça. Que sirva de lição para a próxima edição.

O que quero abordar nesse texto é o fato de que a Bienal não foi esse sucesso todo que muita gente imagina.

Ao ver a multidão amontoada nos portões de acesso ou invadindo corredores e stand´s das editoras logo se imagina que as vendas tenham atingido patamares estratosféricos e que os escritores tenham sido ovacionados pelos presentes.

Sim, isso aconteceu, mas não em relação aos autores nacionais.

Como já era de se supor, a massa manipulável invadiu o evento buscando conhecer os autores gringos, como por exemplo a Cassandra Clare, cujo marketing já chega pronto nas terras tupiniquins sob a alcunha de seus livros serem best seller, o que faz com que os leitores fiquem ávidos por suas obras.

Quem é Cassandra Clare? Até então eu também desconhecia, mas após conversar com alguns dos presentes ao evento descobri tratar-se de uma simpática gordinha autora dos livros da série Os Instrumentos Mortais, que também desconhecia.

Na verdade não sigo esses modismos literários e provavelmente por isso desconheça esses trabalhos, prefiro algo mais alternativo, distante dos olhares do povão.

Mas sim, havia uma multidão enlouquecida para ter um autógrafo da Cassandra e de outros autores mais famosos, mas e aquele autor brasileiro que publica por editoras de médio ou pequeno porte, quando não de forma independente? A multidão sequer sabia da existência dele.

E esse é o retrato geral da literatura no Brasil: a quantidade de leitores não é muito grande e os que se dedicam a ler, preferem os autores gringos.

Não sei se a culpa é das editoras que não investem nos autores nacionais ou dos próprios autores nacionais que não apresentam trabalhos capazes de baterem de frente com os estrangeiros, ou as duas coisas. Se eu fosse profissional da área talvez pudesse dar a resposta, mas minha visão do meio literário se limita ao de uma leitora, que desconhece os bastidores do sistema.

Como leitora o que posso dizer é que existem muitos autores nacionais bons, cujas histórias são originais e bem elaboradas, mas que tem seus trabalhos ignorados pelas grandes editoras. Talvez isso se deva pela ausência do tal do Q.I. ou por não se sujeitarem a contratos inescrupulosos ou algum dos inúmeros outros fatores já anteriormente abordados em matérias aqui no LitFanBR.

Mas, pense comigo: você trabalha o mês todo para receber o seu salário e enfim vai até uma livraria. Se depara com um livro que aparentemente parece ser incrível, de um autor nacional, que chama a sua atenção. Você já ouviu falar bem dele em redes sociais ou blog´s resenheiros, então você o compra, mas quando o lê fica decepcionada. 

Esperava ler algo que realmente lhe despertasse os sentidos, as emoções, mas lê um amontoado de ideias desconexas que não te acrescentam nada. Confusas, mal direcionadas, com personagens nada convincentes, cenas pouco elaboradas, enfim, um horror. Na próxima ocasião você se arriscará a comprar outro livro de um autor nacional ou preferirá gastar seu dinheiro com uma obra internacional que já foi até adaptada para o cinema e cuja qualidade pode ser mais crível?

É isso o que acontece, e consequentemente os autores nacionais vão sendo cada vez mais marginalizados. Por causa de um punhado de escritores bem relacionados no meio literário, mas com pouca qualidade literária, todos aqueles que talvez fossem capazes de apresentar um trabalho mais decente acabam pagando o pato.

Então, esses autores, por serem assim marginalizados, não tem seus livros comprados e, por não venderem, não atendem às expectativas das editoras que continuam preferindo investir nos autores de renome internacional.

Acaba sendo tudo um círculo vicioso.

O que fazer para mudar isso? Como já disse: não sei.

Vejo nas redes sociais alguns autores alardeando terem todos os exemplares dos seus livros vendidos, mas quantos exemplares foram levados para a Bienal? Vinte? Trinta?

É um sucesso falso, que mascara a realidade dos fatos, mas que leva prestígio a quem teve esse privilégio, afinal, um autor sem renome vender essa quantidade de exemplares pode realmente ser considerado um grande feito.

Mas então eu pergunto: vendeu, mas serão bons? Ou esses livros são fruto de mais um marketing ilusório como tantos outros que se vê por aí e que no final só acabará afastando os já escassos leitores que voltam seus olhos aos autores nacionais?

Compraram seu livros, sim, mas esses leitores que assim o fizeram nessa edição voltarão a fazê-lo em um próximo evento?
A verdade é que esse sucesso todo que a mídia apresenta ao público mostrando balbúrdia para entrar na Bienal, corredores lotados de gente atrás de livros e tudo o mais é uma imagem fantasiosa.

Quem faz sucesso, como sempre acontece, são os autores estrangeiros, que vendem toneladas de livros, fazendo com que as editoras tenham o retorno do capital investido.

Essa receita é simples e até eu, leiga, conheço: quem vende, é publicado e republicado, quem não vende, é ignorado.

Enquanto isso muitos autores que realmente merecem ser lidos prosseguem publicando por pequenas editoras, quando não o fazem de forma independente, sem incentivo algum.

Hoje a Bienal se encerra, só compareci a ela no sábado mas duvido que a situação tenha sido diferente nos outros dias, ou que seja diferente hoje.

Essa é a realidade da Bienal, nua e crua, infelizmente.

Entre em contato: litfanbr@gmail.com 


16 comentários:

  1. Esse é o típico texto de quem acabou de descobrir que Papai Noel não existe e veio correndo contar com lágrimas aos olhos. As coisas são assim mesmo, a produção estrangeira tem apelo maior junto ao grande público. Paciência. Agora ver essa situação como decadente e sem esperança não faz sentido. Nunca antes tivemos tantos autores fazendo sucesso, ainda que comparativamente modesto. Há 20 anos havia apenas o Paulo Coelho. Hoje os autores brasileiros de fantasia se destacam. Primeiro veio a dita santíssima trindade: Vianco - Spohr e Draccon. Logo se uniram o Leonel Caldela, o Affonso Solano e a Carolina Munhoz. E não ficou por aí, continua aparecendo gente boa, como o Felipe Castilho, César Alcazar, e o Tiago Tizzot que possuem um alcance pequeno, mas um talento indiscutível. No cenário também se somam a Ana Merege, a Saueressig e Christopher Katensmidt. Como então pode dizer que o cenário é ruim, se o que vemos é justamente o contrário? Há 10 anos alguns precursores como Jorge Tavares e Michele Klautau encontraram um cenário árido e caíram no esquecimento, mas hoje a realidade é outra. A Literatura Brasileira de Fantasia está vivendo disparado o melhor momento de sua História.
    "Ah, mas e o kaótico. Há, mas e as pirigóticas. Há mas e aquela editora picareta", vão reclamar os xaropes de plantão. Gente, merda sempre existiu e existirá. O Renascimento italiano não produziu apenas Leonardo da Vinci e Miquelângelo. Artistas menores, mecenas de visão curta e verdadeiras porcarias também estiveram lá.
    "Ah, mas e os autores independentes que tem talento mas não tem editora e nem puxam saco de ninguém, como ficam?". Os alternativos estão aí, em pequenos eventos e principalmente na Internet, o próprio blog aqui tem seu autor independente "adotado" que é o Oscar(ótima escolha, por sinal, pois os textos dele são excelentes). Eles não estão na Bienal vendendo horrores porque não é o espaço deles, assim como também você não vai ver o Spohr vendendo seus livros no meio de uma seresta em Conservatória.
    "Mas e por que as grandes editoras não investem neles?" As editoras não são instituições filantrópicas, elas querem seu lucro. A sociedade é capitalista, goste ou não. Agora atribuir todo o sucesso de um autor ao modismo é inveja derrotista, e vocês - acredito eu - são melhores do que isso.

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    1. Olá Anônimo.
      Como mencionei em meu texto: não trabalho no meio literário, sou apenas uma leitora como tantas outras e através dele apenas expressei meu ponto de vista. MEU ponto de vista, e não do blog, até porque cada um dos autores que escrevem pra cá tem suas próprias opiniões, que muitas vezes não condizem com a minha.
      Não quis dizer que não exista escritores brasileiros bons e de sucesso, mas sim, que a Bienal não é todo esse sucesso como os mais leigos (mais ou como eu) acreditam, pelo menos não para a literatura nacional.
      Agora imagine: quem iria na Bienal se, por exemplo, fosse proibida a presença de autores gringos? Meia dúzia de gente visitaria o evento, se muito.
      E outro ponto a ser salientado: nem todo autor de sucesso escreve bem, muitos deles, como o Draccon mesmo, são sucesso mais pela sua oratória e carisma do que pela qualidade de seus livros.
      Mas, é só a minha opinião.

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    2. Ok, vamos lá.

      Se eu disser que os escritores Bruno Azevedo, Vicente Mateus e Igor Araújo são excelentes? Vai fazer alguma diferença?

      Vocês provavelmente vão ler e deixar passar. Sem problemas, afinal, os três citados acima não são escritores. São apenas nomes de amigos de infância.
      Falo isso porque não é raro a turma ficar citando nomes e mais nomes aqui, dizendo que são isso e aquilo.
      Acontece que não adianta citar nomes de autores desconhecidos, dizendo que são exímios. NINGUÉM LIGA!

      Quem quer autor é fã. Leitor quer é livro. Então em vez de citar nomes nacionais desconhecidos, cite bons livros nacionais desconhecidos.
      Quer um exemplo?

      Eu li um livro foda chamado Lado A e Lado B. Passou a ser o melhor livro que já li até hoje, e não estou brincando. Não vou citar o autor porque ninguém conhece. Mas vou facilitar a vida dos curiosos postando o link:

      http://www.amazon.com.br/Lado-Retalhos-Uma-Hist%C3%B3ria-Amor-ebook/dp/B00GDCP9BE

      Dessa forma, ajudo a direcionar os leitores dispostos a buscar obras nacionais que prestem.

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  2. E para piorar, soube que algumas autoras, além de sofrerem para conseguir ter algum destaque, ainda tiveram que cuidar dos livros porque ocorreram ROUBOS em algumas estantes. Perai, gente? Que absurdo é esse! Roubando livros! O mundo ta perdido mesmo!

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  3. Olá. No ano de 2012 compareci a bienal e comprei sete livros de autores nacionais. Porém, destes sete, apenas três se salvaram.

    Falta cuidado por parte dos autores nacionais, principalmente na parte da pesquisa. Já li livros em que o autor, que mora em São Paulo, errou o itinerário do metrô, ou detalhes geográficos e até a estação do ano. Como é possível ser inverno no mês de dezembro, no Brasil?

    O problema da literatura nacional não ser tão procurada pelos leitores, é pelo marketing das editoras, junto com materiais pobres. E o que piora ainda mais a situação. É que alguns autores escrevem textos terríveis e nem ao menos fazem um esforço para melhorarem.

    Este ano não fui a bienal por motivos financeiros. Mas se tivesse ido, teria comprado apenas os livros dos três autores que gostei. Quanto aos outros... Passaria longe. Bem longe.

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    1. Fale ao menos o nome dos 3 que você gostou...

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  4. Vale lembrar que os gringos sabem fabricar um sucesso como ninguém.
    São muito comuns os casos de livros gringos que fazem enorme sucesso, mas são um lixo em todos os tons de todas as cores.

    Podem me chamar de chato e dizer que eu sempre bato a mesma tecla. Vou continuar dizendo que muito autor nacional escreve inspirado nesse lixo que vem de fora.
    Então é um lixo escrito inspirado em outro lixo. Que nome dar a esse tipo de obra?

    Chorume.

    www.diariodekalyn.blogspot.com

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  5. Uma coisa aqui deve ser levada em consideração: O escritor nacional não tem chance na Bienal porque tem que pagar uma fortuna pra ter seus livros lá. E os que pagam, muitas vezes ficam sozinhos em seus stands sem dar nenhum autógrafo. E tem os guerreiros: que ficam lá mais de uma semana pra vender uns 30 livros, que também custaram caro porque a editora em vez de patrocinar o pobre coitado, ainda cobrou pela impressão dos livros.

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    1. Seria interessante termos dados concretos sobre valores pagos para estar na Bienal. Vi nas redes sociais muito autor zé ninguém dando autógrafo lá como se fosse o um Paulo Coelho da popularidade.

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    2. Como assim, dados concretos? Todo autor nacional que publica em editora que está na Bienal sabe que isso acontece.

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  6. Essa Bienal é pior que a Literatura Fantástica Brasileira. Qualquer feirinha mequetrefe na Argentina é melhor que a Bienal. Até a Feira de Montevideo é melhor que a Bienal...Um monte de escritor Zé Povinho se achando William Shakespeare...fazendo caras e bocas como se escrevesse algo de útil para a humanidade.

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  7. Pena que não dá pra publicar fotos aqui nos comentários.
    Publicaria algumas que deixariam vocês de cabelo em pé.

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    1. Entra em contato para publicar no Twitter do LitFanBR

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  8. Engraçado. Hoje saiu uma matéria na Veja online dizendo que foi justamente o contrário: os autores nacionais pela primeira vez superaram os gringos em vendas. Não estou falando de qualidade, mas de quantidade.

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    1. Não acho impossível.

      Agora é preciso ver se foi uma venda equilibrada, ou algo do tipo:

      Huguinho = 10 vendas
      Zezinho = 15 vendas
      Luizinho = 23.489 vendas

      Isso porque há uma predominância não na busca de livros nacionais, mas por autores da moda.

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