Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Seguindo George R. R. Martin.


Por Chutenacara.com.br.


Recentemente foi publicada uma matéria no blog do Estadão em que George R. R. Martin declarou em um programa de televisão que escreve suas obras utilizando o DOS.

Visite o Blog e leia a matéria antes de prosseguir com essa leitura, ou então boie totalmente.
Pois bem, escritor iniciante.

“Cada doido com sua mania”, mas não devemos esquecer que George é um famoso escritor e que a matéria não explica como ele envia os textos que escreve no DOS para seu editor.

Mesmo que você odeie os corretores ortográficos, como ele, nem pense em fazer algo semelhante na ânsia de que assim conseguirá o mesmo status que o criador de Game of Thrones.

Alguns autores iniciantes acham que seguir cegamente os passos de uma celebridade literária fará dele uma. Mas não é nem assim, aliás, sob certos aspectos, nem pense em fazer isso.

Primeiro: independente de onde Martin escreva, seus textos possuem qualidade. Caso você desconheça os trabalhos dele sugiro que leia “As Crônicas de Gelo e Fogo” e tire suas próprias conclusões. Se você se julga capaz (por que não?) de criar algo semelhante, parabéns, prepare-se para ser idolatrado pela legião de fãs do gênero e deixar para sempre o ostracismo no meio literário e, quem sabe, chegar à Hollywood. Mas antes precisa obter o reconhecimento do seu trabalho e, para isso, deve enviar seu material de forma decente a um editor.

Segundo: devido ao sucesso que ele atingiu, ainda que escreva em um rolo de papel higiênico e envie esse rolo para o editor, ele dará um jeito de transcrever esse texto em uma plataforma que possa ser devidamente utilizada por uma editora, afinal, qual editora se recusaria em receber os originais de R. R. Martin?

Então não pense você que pode seguir o exemplo dele e enviar seu material de qualquer jeito para uma editora, por melhor que ele seja. Você deve seguir os parâmetros estabelecidos: primordialmente, que ele seja escrito no Word, e segundo, que o material siga todas as especificações por ela exigidas como tipo e tamanho da fonte, etc.

Mas, fugindo das dicas para o escritor iniciante que pensou em seguir os mesmos passos do citado autor, vamos analisar um pouco o comportamento dele.

Óbvio que os corretores ortográficos não aceitarão palavras desconhecidas do dicionário.

Quando você seleciona o idioma no Word, que é o mais utilizado para criação de textos, este assumirá o dicionário que ele contém para corrigir as palavras. Se o problema for utilizar palavras criadas que o idioma desconheça, como parece ser o caso de R. R. Martin, você pode incluir tais palavras no dicionário do programa e assim evitar que ele fique assinalando-as como incorretas ou as substituindo, fazendo com que tenha que ajustá-las manualmente, o que é bastante irritante.

Outra solução é ainda mais simples: desabilitar o corretor automático, de forma que você poderá escrever o que quiser e como quiser sem ter que se preocupar com o dicionário. Mas, visto que o domínio de um idioma, no nosso caso o Português, é algo raro de ser visto, provavelmente o texto criado sem que haja a correção ortográfica terá uma quantidade de erros ortográficos e gramaticais tão bizarros que o editor não conseguirá ler dez páginas e seu trabalho será rejeitado.

Você não faz ideia do que seja o DOS? Veja abaixo a tela do “convidativo” programa:


Você teria coragem de escrever um livro todo utilizando esse programa? Particularmente, eu não.

Obviamente George R. R. Martin deve ter recebido essas dicas em algum momento, mas como já disse, qual editora se recusaria em receber um original inédito dele? E olha que ele escreve em inglês, idioma que não requer acentuação, por exemplo.

As celebridades, ao atingirem certo patamar, podem criar o que for e da forma que bem entenderem que seu trabalho será bem recebido e, mesmo que haja a necessidade de que o texto seja quase totalmente corrigido, a editora assim o fará, de forma que elas não têm com que se preocupar.

Não estou dizendo que George R. R. Martin não domine o idioma no qual escreve, muito pelo contrário, mas visto que ele criou o idioma dothraki, realmente trabalhar em um programa que faça correções ortográficas deve ser bastante desagradável.

Uma coisa sempre deve existir não apenas na mente de um escritor, mas de qualquer profissional (ou pelo menos deveria existir): qualidade acima de tudo, novato escritor.

Seu material, além de possuir uma qualidade literária muito boa (onde inclui-se originalidade, forma de narrativa, etc) ainda deve obedecer às regras ortográfico-gramaticais da língua em que é escrita assim como às especificações técnicas (fonte, tamanho, etc) editoriais para que, quem sabe, ele seja aceito e, talvez algum dia você obtenha um prestígio semelhante ao de George R. R. Martin.

Se vemos obras bizarras sendo publicadas por "autores" que utilizam programas com corretores ortográficos e até mesmo editoras que dispensam um revisor de textos "humano" para fazerem uso deles, publicando obras deploráveis, imagine se a moda de Martin pega?

Seria realmente o caos literário.

Entre em contato: litfanbr@gmail.com

6 comentários:

  1. Essa do Martin escrever no DOS foi uma surpresa! Mais orc que isso só usar a ferramenta lápis do Paint!

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  2. Não quero aqui criar a " Teoria da conspiração literaria " mas vc já imaginou quanto vale um livro deste cara ? Quanto uma Editora não pagaria para ter uma cópia antes de todo mundo ? Como ele mesmo falou, com esse computador que roda o DOS , não tenho problema de virus...

    Agora o que vc falou faz um sentido enorme....Logo Logo o Dos volta a ser usado no Brasil....quem sabe se com esse programa , não cai como um raio, ou uma luz ....Certa inspiração Georgiana...kkkk

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  3. Defina caos literário.

    Só de pensar que as coisas poderiam ser ainda piores, é realmente assustador.

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  4. Só uma correção: o George R. R. Martin não criou a língua dothraki. Ele criou algumas palavras em alguns idiomas do universo dele (dothraki, valiriana antigo, etc.) que são faladas em poucas partes dos livros (khalasar, khaleesi, vallar morghulis, etc.), mas a língua mesmo, que é falada no seriado (a dothraki e a valiriana), foi criada por um linguista (filologista) a pedido da HBO.

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    1. De fato, não creio que haja a necessidade de criar uma língua inteira para um livro. É trabalho demais para um benefício ínfimo. "Olha só, tem uma língua inteira criada nessa estória. Muitos textos que não dá pra entender nada, mas é bem legal..."

      Já em uma série, basta colocar a legenda e pronto. Ilustra bem uma importante característica cultural dos personagens.
      Falo isso porque não raro, um ou outro ventila estar criando uma língua para seu livro de fantasia. E sempre digo: "Não perca o seu tempo com isso."

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  5. A vantagem do uso do DOS é a falta de distrações. Não tem como embelezar o texto. É sentar e escrever, sem correções, sem edições, sem frescuras de barras de ferramentas.

    Porém, isso é para o primeiro momento: o rascunho (first draft). Nesse momento é imprescindível escrever sem limitações e críticas, impostas pela máquina ou pelo editor interno pessoal.

    Na hora da edição e revisão eu tenho certeza que ele usa um editor de textos moderno. Essa é a hora de religar o editor interno e ser crítico com cada linha escrita, cortando palavras desnecessárias, mudando frases, reajustando plot lines, etc.

    Há alguns editores de texto simplificados criados por esses motivos. Já usei o Dark Room e gostei bastante. É só a tela preta e as letras verdes (cor personalizável). É só o escritor e a criatividade.

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