Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Vida de escritor.


Por Chutenacara.com.br.

Retornando enfim das férias e o espírito natalino parece não querer abandonar esse corpo. Deve ser isso porque a ânsia de ajudar àqueles perdidos nesse mundo capitalista é colossal.
Dentro da minha parca experiência no meio literário (uns trinta e cinco anos, mais ou menos) eu já vi trajetórias de sucesso e de fracasso e acredito poder ajudar quem almeja ser reconhecido e ter uma velhice feliz.
Pois bem, vamos então ao que importa, abramos uma cerveja gelada (calor terrível né?) e acendamos um cigarro, pode ser um baseado, se você curtir, eu não ligo, mas prefiro o meu Free.
Existem tantas profissões a serem seguidas que na grande maioria das vezes os jovens ficam sem rumo e não sabem qual seguir.
Arquiteto, engenheiro, administrador, jornalista, médico, advogado, farmacêutico, etc.
São tantas opções e tão grande é a indecisão que muitos desistem de seguir seus instintos (até porque ele muitas vezes nos fodem) e optam pelos testes vocacionais que lhes darão o rumo correto a ser seguido pelo resto da vida.
Como trabalho dentro do meio literário sinto-me apto a dar uma ótima sugestão a todos os que ainda encontram-se sem chão.
Seja escritor!
Sim, não ria, estou falando sério.
Mas antes de dizer os motivos pelos quais deva-se seguir o caminho das letras devo advertir que há uma única exigência, imprescindível, para que se opte por tal profissão: gostar de escrever.
Ok, você gosta de escrever, expressar suas opiniões, recitar poemas de banheiro, contar histórias e relatar "causos", então o que está esperando? Seja um(a) escritor(a)!
Não importa se você não possui muita afinidade com a língua portuguesa (se pretende escrever em tal idioma) visto que em qualquer programa de edição de textos existem os fabulosos corretores ortográficos que limparão toda a cagada ortográfica que cometer. Até mesmo as gramaticais podem ser corrigidas, mas isso é um pouco mais complexo e talvez seja difícil para você, bom, bem, hum...
Ok, você gosta e quer escrever, e é isso o que importa, então, na boa, que se dane a gramática!
Não tem muita bagagem literária porque só gostava de assistir televisão e jogar vídeo-game? Sem problema algum, pra que influências literárias? O que vale é a originalidade, ter seu estilo próprio e ter lido muitos livros só o(a) podariam nesses quesitos.
Enquanto cria a próxima obra ganhadora do Prêmio Nobel nada de ficar lendo outros livros que só embaralharão suas ideias, nada disso, aproveite o tempo ocioso para fazer amigos dentro do meio literário. 
Uma ótima opção são as redes sociais. Abra uma conta, crie um pseudônimo bem impactante como "Armageddon", "Stoker", "Kaos", "Lioncourt", "Lilith"(esse é bem incomum), "Gunner", "Ramone", "Aerosmitha" ou algo do tipo, entre em grupos ligados à literatura e adicione pessoas que você nunca ouviu falar na vida, mas que lhe serão úteis, muito úteis em seu sucesso como escritor.
Crie um perfil bem legal, chamativo, onde você pode enaltecer sua participação em alguma entidade filantrópica cosplayer, vampírica, autodenomine-se como especialista em alguma coisa, como vampirismo, fanzines, jogo da verdade, enfim, tente fazer com que as pessoas creiam que você é vital para a vida delas.
Você adicionou e foi aceito(a)? Maravilha! Elogie qualquer postagem dessas pessoas, por mais esdrúxulas que possam ser, principalmente se de alguma forma tal postagem estiver ligada à literatura.
Citações do Félix Bicha Má atribuídas à Clarice Lispector? Curta! Compartilhe! O importante é aparentar intelectualidade, afinal de contas as páginas de relacionamento nada são além disso: vitrines que fogem, e muito, da realidade, mas que aproximam pessoas com mentalidades semelhantes.
Repassemos então os dois primeiros passos:
A) Criar a maior obra literária de todos os tempos. OK
B) Criar uma rede de relacionamentos dentro do meio literário. OK
Perfeito, com as duas primeiras metas cumpridas vamos para uma investida mais pesada.
Compareça a todo e qualquer evento literário (mesmo que seja realizado onde o Judas perdeu as botas), paparique os presentes (que se não forem "escritores" provavelmente estão a eles ligados de alguma forma) e não perca a oportunidade de dizer que você também é escritor(a).
Se for do sexo feminino capriche nos decotes e não economize na maquiagem. Vale até usar purpurina na cara, mesmo sendo um evento "literário" e não Carnaval. Acredite, funciona!
Caso seja homem existem duas táticas opostas de se portar em tais ocasiões, vai depender do seu gosto, mas ambas funcionam, pode confiar: apesar de não ter nada a ver, faça uma espécie de cosplay do Jack Sparrow, ou do Chewbacca. Certo, meio radical demais para você? Então faça o tipo intelectualzão, use algo social e demonstre certo ar intelectualizado, afinal de contas quem vai publicar o livro de uma besta humana?
Em tempo, não se esqueça de galantear as mulheres presentes, sabe como é, sempre existe a oportunidade de aparecer uma "apertadinha" disponível.
Tudo bem, galantear significa xavecar, caso você desconheça o termo.
Perfeito, agora você tem a maravilha literária em seu poder, construiu uma rede de amizades sólida e todos já sabem que você escreve e mais, que você é foda na escrita!
Agora mantenha a calma, não demorará muito e logo surgirá convite para alguma antologia bem legal criada por alguém bem gabaritado e, sobretudo, equilibrado.
Sim, porque essas antologias surgem como baratas, afinal de contas o que não falta são pessoas desocupadas, sem um caso amoroso, sem filhos e sem porra nenhuma e que para ocupar sua vida vazia e medíocre cria esse tipo de trabalho.
O convite foi feito e você o aceitou. Muito bom, agora crie um texto bem legal de acordo com o tema proposto pela obra. Sem inspiração porque não entende muito do assunto? Isso não é um problema, fume umas pedras de crack, ou quem sabe uma maconha e logo a inspiração aparecerá. Radicalizar assim não está em seus planos? Fique na cachaça mesmo, pelo menos é uma droga lícita e o efeito é quase o mesmo. Além do mais a qualidade do que for produzido não é tão relevante, não se esqueça de que você é a escritora do decote convidativo, ou o Chewbacca de pinto grande, e isso já lhe garante uma vaga, pode confiar.
Sensacional! Seu nome já figura entre uma seleta lista de escritores renomados que farão parte da antologia! Você está imortalizado(a) no mundo das letras!
Não, o ápice ainda não foi atingido, afinal, a obra que lhe rendará o Nobel ainda não foi publicada.
Agora que tem algum reconhecimento em uma antologia de primeira grandeza tente estreitar seu relacionamento com algum desses editores que caçam novos escritores como urubus na carniça. Peça que seus amigos do meio literário indiquem seu nome, e se isso não for o suficiente, prometa algum favor a essa gente, escritores e editores. Que tipo de favores? Isso vai depender muito do nível ao qual sua dignidade pode descer, e esteja certo, não há limites para isso.
Utilizou bem suas armas de sedução? Conseguiu que um editor aceitasse publicar a mais fantástica obra literária dos últimos tempos? Sucesso!
Não, não, isso não é tudo.
O editor aceitou publicar seu livro, mas isso não significa que ele cuidará do lançamento e do marketing do mesmo, você terá que se encarregar disso.
Lembra do círculo de amizades? Ele o ajudará também nessa questão.
Você que tanto elogiou, criou resenhas fantasiosas e divulgou o trabalho da nata literária precisa ter esses favores retribuídos, claro.
Como não? Uma mão lava a outra!
E não sinta-se constrangido(a) em pedir, essa é a prática mais comum dentro do meio literário, todo mundo faz isso: eu te ajudo a vender o seu e você me ajuda a vender o meu.
Mas o marketing deve ser pesado e talvez apenas a ajuda dos pela, digo, amigos, não seja o suficiente.
Mulher né? Tire algumas fotos sensuais, em banheiras de espuma, ou dê entrevistas picantes para blog´s, isso aumentará, e muito, o potencial de êxito nas vendas.
Homem? Faça montagens mesclando você e personagens famosos e dissemine web afora, ou então pose de super foda literário e dê dicas de como se portar, de como escrever e de como divulgar obras literárias, afinal, você tem um livro escrito e é um "expert" no assunto.
Perfeito, você tem seu livro escrito, publicado e divulgado, agora é só colher os louros da vitória.
Deseja, ainda, um UP maior nas vendas do seu super livro? Coloque-o no Amazon, e não se atente muito a fazer uma descrição muito boa do mesmo, isso é desnecessário. Por quê? Ora, porque seus amigos da literatura te ajudarão, mais uma vez, na divulgação e o leitor nem prestará atenção aos grotescos erros que provavelmente você cometerá. Eles estão indicando a obra mais fodástica da literatura e não será uma descrição porca e risível que retirará seus méritos.
Isso era tudo, agora você tem a vida que pediu a Deus, você é escritor(a)!
Acordar na hora que quiser, ver um filme, ouvir uma música, talvez tomar uma ou duas, queimar um ou dois e se inspirar para a excelente obra que está por vir e que, certamente, lhe trará o mesmo êxito literário.
Você já conhece o caminho das pedras, não tem mais segredo.
Vá escolhendo o modelo de carro importado que mais lhe agrada, já vá dando adeus ao aluguel e pensando em como mandar um possível chefe para a puta que o pariu porque muito mais cedo do que imagina você está nadando em dinheiro.
E você indeciso(a), sem saber qual carreira seguir...
Tolinho(a)!

Entre em contato: litfanbr@gmail.com


6 comentários:

  1. Quanto ódio nesse coração

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  2. Existem pessoas que escrevem buscando somar algo à literatura, assim como existem as que buscam com o livro, adquirir fama.

    O segundo tipo é muito fácil de identificar, pois basta visitar a página atribuída a um livro, e deparar com um monte de fotos do(a) autor(a) nas mais variadas poses (em alguns casos, até sem roupa). E não encontrar absolutamente, nenhuma informação sobre o livro em questão.

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  3. Eu muito meio que me acometo de dois íntimos em minha escritura alma: Almejar a escrita como expressão e, ao mesmo tempo, de fronte com a minha ganância pela identidade própria perante aos outros. Por que dessa dicotomia que não se parece? Porque um colide-se com o outro enquanto arte.

    Escrever é muito de resenhar sobre nós mesmos. Brinco que escritor é aquele que faz uma crítica literária sobre o livro de si mesmo e que o livro que se chega ao leitor é aquela crítica literária. Somos um livro e muito não sabemos de lê-os.

    E talvez por isso muito me fascine que muitos analfabetos possam ler melhor que pseudo-intelectuais: Analfabetos podem, embora não ler letras, lerem pessoas. Já pseudo-intelectuais teimam em não ler até mesmo uma simples cartilha por orgulho ou preguiça. Não é de surpresa flagrar mendigos em livrarias tentando alcançar uma palavra que muitas vezes não consigam, mas tentam porque querem.

    E por isso a tarefa de um escritor é constantemente ler o seu redor, tanto livros como pessoas. E por isso é uma tarefa intrínseca de desespero, pois alcançar equilíbrio e técnica muitas vezes nos choca. Choca por, em instâncias, não crermos em nossa própria escrita.

    Após minha experiência com o primeiro livro, deixarei o caminho fácil e entrarei pelo difícil. E por assim minha vida segue, seja como escritor, seja como outros ofícios de meu gosto.

    E mudando um pouco, identifiquei muito da realidade do texto com a realidade do ofício de baterista, que é o que eu sou enquanto não escrevo. Não é bastante o tocar bem em vários estilos: Se tocar em 200BPM por hora no bumbo com pedal duplo, já consegue elogios de todo mundo. Agora exerça a mesma função em Samba, Jazz ou mesmo usando o feeling musical pra ver se dá tanto reconhecimento. Até te criticam por assim fazer.

    Estão sendo tempos difíceis nas artes =/

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  4. Gostava muito daquela música do Tim Maia : " Vale tudo " Numa parte ele dizia..." Só não vale Dançar homem com homem Nem mulher com mulher "....Agora até isso vale....Desta forma, hoje em dia, não espero mais nada ...Nem mesmo da literatura.

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  5. Esse tipo de gente só existe porque há vermes apoiando.

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