Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Protesto de um bogueiro contra os copiadores de conteúdo.



Por José Geraldo Gouvêa.




O copiador de conteúdo trabalha contra o objetivo maior do novato, que é 
tornar-se conhe­cido. Aquilo que ele semeia, o copiador vem e arranca. Se você 

é um escritor novo e des­co­nhe­cido, o seu maior inimigo não é o editor 
picareta, porque ele não pode invadir o seu bolso a menos que você o convide a 
entrar. Com alguma dose de bom senso e bons conselhos, você pode escolher até 
conseguir utilizar em seu proveito os serviços de uma editora ruim.



Mas você não pode fugir do copiador de conteúdo, a menos que evite blogar. Mas 

o que fazer se o blogue é exatamente o meio pelo qual pretende chegar a um 
público e tornar-se conhe­cido? As gavetas não avaliarão o seu texto e as 
quatro paredes de seu quarto nunca lhe oferecerão um contrato. Eis, então, a 
monstruosidade do copiador de conteúdo, e eis porque os estou convidando a 
entrarem comigo nessa luta.


É legítimo que o jovem autor, ou o autor amador, jovem ou não, crie blogues 
para compartir os seus textos com o mundo. A internet oferece essa via para 

aqueles que não têm mídia. Muitos autores começaram blogando, lá fora até mais 
do que aqui. Quando cria um blogue para compartilhar os seus textos, o que 
espera é que pessoas venham ler e retornem caso gostem. Você quer que 
memorizem o seu nome para que adquiram seu livro, se futu­ramente aparecer 
numa prateleira de livraria, material ou virtual. Acessoriamente você pode 
esperar ganhar algum dinheiro com anúncios. Cada um desses objetivos é 
frustrado pelo copiador.



O copiador de conteúdo cria um blogue ou saite, mas o utiliza para republicar 
textos escritos por outras pessoas, retirados de outros blogues ou saites, em 

vez de populá-lo com os seus pró­prios textos, ou de autores exclusivos. Isto 
pode ser feito com o consentimento do autor e con­forme con­di­ções negociadas 
(podendo ou não envolver $). Neste caso, não há sacanagem envolvida. Se, por 
acaso, houver erro nos procedimentos, é caso para se corrigir. No máximo, 
pedir desculpas. A sacanagem começa quando a transferência ocorre à revelia do 
autor e/ou desrespeitando as con­di­ções propostas.



Idealmente, não deveria haver nenhuma cópia de conteúdo porque, como disse 
acima, o autor coloca seu texto na internet para se promover. O autor “gosta 

de aparecer”. Se não gostasse, não criava blogue, não fazia Facebook, não 
participava de antologia, nada disso. Então, quando tira o texto do blogue e o 
leva para outro lugar, você está “desaparecendo” um pouco com a promoção que o 
autor queria fazer para si. No entanto, se você faz um bom tra­balho de 
divulgação do seu grande meta-blogue ou saite, o autor não vai se importar com 
isso porque a visibilidade que ele terá com o seu texto, mesmo entre dezenas, 
em um saite muito visitado pode ser maior do que a de seu obscuro blogue 
original. Por isso, esse “idealmente” é muito relativo. E ninguém deve ter 
vergonha de copiar texto de blogue para pôr no seu saite, pelos motivos acima 
expostos.



É justamente essa visibilidade que traz a “remuneração” metafórica que o autor 
busca. Você deve permitir que o autor usufrua do benefício de ter um texto no 

seu grande meta-blogue ou saite, através do aumento da exposição de seu blogue 
original e de seu nome. Caso você crie obstáculos para essa visibilidade do 
autor você está sendo canalha com ele. E esse texto é contra você. Você é 
parte do que está errado no mundo. Você é um vampiro de conteúdo.



O primeiro passo da “vampiragem” é não notificar o autor. Esse simples aviso 
já é uma remu­ne­ração para um autor amador. Dependendo do renome de seu 

saite, o autor mandará e-mail a muita gente para gabar-se que foi selecionado 
(o que não deixa de ser publicidade gratuita para você). É um estímulo, 
também, para que ele continue produzindo.



Em seguida está a não atribuição de um link recíproco (“backlink”). Esse link 
direcionará os leitores do texto para o endereço de onde foi retirado. Quem 

gostar daquele texto procurará ler outros do mesmo autor. Esse aumento de 
tráfego poderá gerar receita de publicidade para o autor (através de AdSense 
ou outro serviço) ou pode servir como outro estímulo.



O último nível em que ainda dá para supor a boa fé está na remoção do crédito 
da autoria. Ainda é possível pensar que foi apenas erro (caso tenha sido um 

caso isolado) ou um mero desconhecimento da etiqueta (especialmente no caso de 
traduções). Mas a remoção da autoria já é uma ação perniciosa, que trabalha 
contra o reconhecimento do trabalho do autor, cer­ta­mente já lhe causando 
grande frustração. Muitos textos acabam se tornando apócrifos por causa disso, 
negando crédito a quem realmente os escreveu.



Saindo do terreno dos incautos e caindo firmemente na área da picaretagem 
amadora, existe gente que se atribui (ou a outrem) a autoria dos textos 

copiados. Isso nem sempre é aparente, basta uma simples notícia de copyright 
no rodapé da página (frequentemente adicionada por padrão a todas as páginas 
do blogue ou saite) para configurar uma reivindicação de autoria. Picare­tas 
um pouco mais mal-intencionados vão mascarar a autoria original introduzindo 
pequenas altera­ções no texto (adição ou subtração de palavras, mudança da 
configuração de parágrafos). Alterações que não resistem segundos a uma 
análise em um programa de diff. Se o picareta for ainda mais sofisticado, 
tentará forjar uma prova de anterioridade da autoria, blogando com data 
retroativa (algo fácil de se fazer na maioria das plataformas de blogue).



Picaretas realmente profissionais tentarão impedir que o autor identifique o 
roubo de seu texto e suprimirão suas tentativas de protesto caso ele apareça 

reclamando em grupos do Facebook, comunidades do Orkut/Plus, clãs do Netlog, 
blogues coletivos, fóruns, etc. Esses são mais perigosos, porque não agem 
sozinhos: conseguem parceiros para ajudá-los a mode­rar comentários ou até 
mesmo para hackear o blogue do autor, ou fazer-lhe um ataque DdoS. Com a ajuda 
desses parceiros, e também de sockpuppets (perfis falsos em redes sociais e 
fóruns), produzirão uma campanha de ofuscamento do feito, difamação do autor e 
obstaculi­za­ção de toda tentativa de esclarecer o que aconteceu.



Caso o ataque continue por bastante tempo e seja efetivo para apagar a vida 
online do autor (dele­ção de blogue, expulsão de comu­ni­dades/grupos), o 

copiador poderá impedir defi­ni­ti­va­mente que se reivindique sua pro­
priedade original do texto. Porém, como são poucos os auto­res que identi­fi­
cam tais abusos e “correm atrás” de seus direi­tos, o esforço dispendido pelos 
copi­a­dores é pequeno. O objetivo desta campanha é torná-lo maior, para que 
seja menos lucra­tivo (em termos de remuneração monetária ou subjetiva). Seria 
ótimo os autores protestarem mais, exigirem mais, dar mais trabalho a quem 
rouba seu trabalho.



Nem todo copiador de conteúdo tem a intenção de prejudicar o autor do texto 
original. Todos, porém, pensam em ganhar alguma coisa (dinheiro ou 

reconhecimento) com o seu projeto. Quando esse ganho não impede que o autor 
também ganhe alguma coisa por si, temos uma relação justa e até desejável. A 
coisa só se torna imoral quando o copiador, além de ganhar, impede 
(intencionalmente ou não) que o autor também ganhe.



Algumas destas práticas descritas são “benignas” (na mesma acepção de “tumor”) 
porque é pos­sível supor que não houve intenção. Outras são “malignas” justa­ 

mente por­que a suposição é improvável. Mas algumas são muito “malig­nas” 
pois, além da intenção ser evi­dente, ainda fica evidenciado um trabalho 
persistente de manutenção ou extensão do dano.



Acredito que uma boa prática para saites ou blogues que publicam conteúdo 
alheio deveria envol­ver os seguintes passos:



1. Contactar ao autor, informando-lhe que um texto seu foi selecionado para 
publicação. Mesmo que o contato não seja possível, se o autor tiver publicado 

sob uma licença que pres­supõe auto­riza­ção de cópia, como a Creative­Commons 
usada no meu blogue, ainda se poderá fazer a publi­cação, desde que 
respeitados os passos seguintes, mas sem autorização não se deverá nunca 
republicar texto algum.



2. O contato deve sempre perguntar ao autor se ele autoriza a publicação do 
texto tal como está no blogue ou se deseja fazer alguma revisão.



3. A publicação sempre deverá incluir atribuição de autoria visível (no 
cabeçalho, nunca no rodapé) e deverá ser oferecido um link para o endereço de 

onde o texto foi retirado (preferencialmente vinculado ao nome do autor ou, 
menos elegantemente, no rodapé).



4. Para valorizar os autores, especialmente os que tiverem mais de um texto 
republicado, é boa ideia criar uma página de perfil, com foto, minibiografia e 

lista de seus textos constantes no local.



Agindo desta forma, os meta-blogues ou saites que reproduzem conteúdo estarão 
oferecendo aos autores uma compensação justa pelo trabalho que realizam e 

manterão esses autores moti­vados a continuar escrevendo e compartilhando 
textos na internet. Agindo de outra forma, será cada vez mais frequentes que 
os escritores tenham receio de colocar o seu texto na rede (como eu já deixei 
de fazer), o que reduzirá a longo prazo a quantidade e a qualidade dos textos 
livremente dispo­níveis para leitura on-line. A menos que esse seja o seu 
objetivo, acre­dito que você será sensi­bilizado por este manifesto e adequará 
suas práticas.


Entre em contato: litfanbr@gmail.com

2 comentários:

  1. O que me motivou a escrever este texto foram dois casos recentes em que trabalho meu (no caso, traduções) foi apropriado por sites "de conteúdo" sem minha autorização (ou em desacordo com a autorização explícita que eu concedo mediante Creative Commons).

    Em um dos casos eu cheguei a ser expulso de um grupo no Facebook porque reclamei lá de uma republicação não atribuída.

    Gostaria que mais blogueiros pegassem esse texto e o ecoassem (se possível mantendo a citação de minha autoria) para tentarmos conscientizar a blogosfera de que o blogueiro escritor merece respeito.

    De imediato, e por enquanto, eu PAREI de postar ficção no meu blogue.

    http://letras-eletricas.blogspot.com

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  2. É triste que pessoas motivadas por uma paixão se vejam obrigadas a parar seu trabalho por conta da irresponsabilidade de terceiros, que na falta de criatividade e talento, se apropriam do trabalho alheio.

    José, eu e uns amigos escrevemos um ebook para blogueiros, onde o tema era o plágio. Creio que existem várias atitudes a serem tomadas que podem te ajudar. Caso queira o ebook, que é gratuito, está neste link - http://aprendablogando.com/plagio-o-ebook-colaborativo-da-blogosfera-legalizada/.

    Acabei de conhecer seu blog e espero que volte a publicar logo.

    Abraços!

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