Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Profissionais, Pero No Mucho.


Por Super Choque.



Recentemente o Eduardo Jauch publicou no seu novo blog uma análise causticante do cenário literário nacional, fazendo uma afirmação bombástica, que ofendeu a muita gente (e que me atinge, embora não me ofenda): a de que a democratização da publicação trouxe prejuízos à formação do autor. Bem, isso é um resumo muito grosso do texto como eu o entendo. E também recentemente vocês publicaram um relato de um pobre autor pobre (sic) que se endividou muito para realizar o sonho de publicar seu livro e terminou descobrindo que estava na mão de uma editora inescrupulosa. Meu relato tentará argumentar que não é necessário que faltem escrúpulos para que o dano seja causado, basta faltar o mínimo necessário de profissionalismo.

Comecemos pelo autor: no Brasil são muito raros os autores profissionais, aqueles que não precisam de outra profissão para seu sustento, que podem dedicar-se integralmente a escrever, que podem respirar literatura em cada hora de seu dias. O amadorismo (sim, o termo procede) cobra um preço grande na qualidade das obras e na capacidade do autor para atingir seus objetivos propostos, inclusive pela dificuldade de dedicar-se à divulgação. A profissionalização do autor brasileiro seria um passo importante para nós passarmos a ter uma literatura pujante, mas isso é um delírio de futuro improvável.

Eu cito esse amadorismo do autor porque não raro os editores culpam os jovens e inexperientes autores pelas mazelas que acabam surgindo no processo de publicação. Acho isso incrivelmente injusto, isso é culpabilizar a vítima. Os autores são amadores porque, entre outras razões, a nossa literatura é raquítica e nosso público leitor tem uma cultura deformada pela influência massificante da televisão e dos best-sellers que ela alimenta e de que se alimenta. E continuam amadores porque as editoras profissionais não se interessam por eles e porque as editoras que se interessam por eles são tão ou mais amadoras do que eles. Eu gostaria, simplesmente, que todas as pessoas assumissem a responsabilidade dos seus atos e parassem de empurrar a culpa. E a culpa dessas editoras é grande.

A principal culpa do editor é a qualidade do livro. Não me refiro a erros de formatação ou ortografia (se bem que eles me irritam muito), mas a qualidade intrínseca mesmo. Se o livro é criticado o editor não pode transferir essa crítica para o autor. Se o livro é ruim e foi publicado, a culpa é do editor, que não cumpriu sua função de "editar", ou seja, selecionar e preparar, obras de qualidade. O autor não tem culpa de ser ruim.

Digo isso porque deveria ser parte do ofício do editor oferecer assessoria ao autor. Começando pelo reconhecimento do potencial das obras que tivessem potencial, diferenciando-as das obras meramente derivativas, tolas, egocêntricas ou irrelevantes. Continuando por uma revisão competente, encontrando as contradições e os erros e sugerindo seus consertos. Terminando por fazer um livro bacana e entregá-lo ao autor conforme contratado. E depois de terminar, a assessoria deveria continuar, oferecendo feedback sobre a recepção da obra no mercado, informando ao autor eventuais menções na mídia, etc. O mínimo que uma editora profissional deveria fazer. Se a sua editora profissional não faz isso, provavelmente ela não é profissional. E não me diga que eu estou ensinando o padre-nosso ao vigário: isso é o que as editoras antigamente faziam, os editores e revisores chegavam a conhecer pessoalmente os autores, trocavam correspondência, chegavam a dar sugestões de obras futuras. Não tenho culpa se a qualificação de profissionalismo para uma editora foi rebaixada desde os anos 60, a qualidade da nossa literatura atual deve significar que eu não tenho razão, não é mesmo?

Meu caso começou quando fui selecionado para publicar por uma editora "descolada", que edita muitas antologias e tinha uma presença forte nas comunidades literárias do Orkut e do Facebook. Inicialmente eu tive uma ótima impressão, porque o meu contato lá dentro (a que chamarei de meu "editor") dedicou atenção à minha obra. Leu várias sinopses de obras diferentes, leu contos diferentes, convidou-me a participar de antologias (nas quais o pedágio envolvia comprar exemplares) e, por fim, se dispôs a publicar um romance de formação de minha autoria (não fantástico, mas eu sou também um autor de ficção fantástica e ele me disse que a qualidade do meu trabalho era fantástica, então eu acho que estou dentro).

Quando lhe mandei o original, então com 159 páginas, ele me devolveu 32 páginas de comentários, apontando erros gramaticais e ortográficos, contradições internas, anacronismos (a obra é ambientada nos anos 80), "fios soltos" e trechos de qualidade ruim. Seguindo sugestões dele eu cortei 22 páginas do livro, acrescentei mais de oitenta outras, reescrevi o final e reordenei alguns capítulos. O resultado final ficou bastante superior e eu passei a ter o meu editor em alta conta, pois ele fizera um trabalho muito bacana comigo.

O problema começou quando a obra, já fechada, entrou em processo de edição. 

Foram necessários quase DOIS anos para que eu tivesse o livro em mãos. Nesse meio tempo aconteceu muita coisa desagradável, muita mudança de discurso e houve um momento em que eu seriamente pensei em chutar tudo para o alto. Mas o canto de sereia de minha estreia literária foi mais alto.


O primeiro problema foi quanto à fonte. Eu já tivera em mãos alguns exemplares de livros da editora e percebera que o uso do processo de impressão a laser, típico das gráficas rápidas, tinha resultados muito ruins em alguns casos, com fonte muito clara, dificultando a leitura (eu sou bastante míope, tenho astigmatismo, fotofobia e certo grau de cegueira noturna). Por isso, desde o primeiro momento eu pedi ao meu editor que o meu livro não fosse composto na fonte Garamond, mas em Charter BT, que tem o corpo mais pesado. Inclusive apresentei argumentos técnicos com citações online: a fonte Garamond foi desenvolvida para uso em impressoras de tipos móveis, funciona também de forma razoável em offset, mas é muito fraca para uso em impressoras de alta definição. Enquanto isso a fonte que eu recomendava, desenvolvida nos anos 80, exatamente para uso em impressoras laser, tinha formas adequadas a definições altas. No entanto, o editor foi inflexível em dizer que todas as obras da editora eram feitas em Garamond, que a fonte era parte da identidade corporativa da editora, e que eu não poderia pedir sua substituição. Pedi-lhe então que, pelo menos, usasse a fonte no corpo "Book", para ter mais peso. Ele aceitou, mas quando abri meus livros impressos eles estavam em Garamond Light, quase ilegíveis.

O segundo problema foi quanto à capa. Ele me perguntara se eu queria papel fosco ou laminado e eu fora taxativo: laminado. Embora o fosco pareça mais "chic", o laminado é mais robusto e não mancha de gordura tão facilmente.

Quando recebi as provas fiquei muito frustrado. Além de lá estar o livro em Garamond Light, a diagramadora usara nos títulos fontes vazadas, em minúscula fixa, alinhada à direita, e em corpo não muito grande que se destacasse e nem pequeno o bastante para que todos os títulos coubessem em linha única. Isso fez a altura do texto nas páginas de capítulo variar ao longo do livro, conforme os títulos de capítulos saíam em uma linha ou duas. Achei um trabalho porco. A capa, por sua vez, era uma fotografia qualquer, sem nada de especial, submetida a um trabalho de desfocamento e distorção através de filtros do Photoshop, com o título e meu nome superimpostos, um trabalho muito básico e sem nenhuma criatividade. Pior que isso: a fonte vazada dos títulos internos era usada na capa, fazendo com que meu nome e o próprio título do livro ficassem sem destaque quando visto de longe ou em tamanho pequeno.

Quando fiz estas observações, recebi de volta uma saraivada de comentários irônicos, fazendo alusão ao longo tempo de dedicação que uma "profissional" designer havia dedicado à "concepção visual" de meu livro, e do quanto ela ficara ofendida por um leigo ter feito aquelas observações quanto à sua obra.

Eu deveria ter respondido que se um leigo percebera defeitos óbvios (como a falta de destaque dos títulos e a difícil legibilidade, ressaltando que eu já lhe havia dito que eu tinha problemas de visão) ela deveria ter vergonha do erro e disposição para o conserto, mas acabei caindo nessa chantagem emocional barata e acabei com o meu livro impresso em uma fonte que eu desto e que não consigo ler, com uma diagramação sem sentido e uma capa que eu teria feito em dez minutos no Photoshop.

Quanto à reclamação sobre a fonte, nesse momento eu tinha em mãos outro livro publicado pela editora, e de autoria de um amigo pessoal mesmo. Esse livro era impresso em outra fonte, chamada Dante, e era muito mais legível. Quando fiz essa menção ao meu editor ele respondeu que o meu amigo "assumira o risco" e submetera o seu livro já composto. Quando eu disse que eu também enviara o meu livro já composto (eu sou amador, mas não sou ignorante de composição tipográfica eletrônica) e que gostaria de "assumir o risco", ele me disse que isso já não era possível, porque capista e diagramador já estavam contratados, já haviam trabalhado e precisavam ser pagos. Eu deveria ter dito "foda-se, problema seu", mas ele tinha um cala-boca para usar contra mim: ele dizia que a editora estava me publicando por sua conta e risco, que eu não teria nenhuma despesa, e que, portanto, estava sendo ingrato ao criticar o trabalho de pessoas que não estavam me cobrando nada e ainda editariam o meu livro. Novamente caí na chantagem emocional e, em vez de tentar cancelar o meu contrato, deixei a coisa seguir. Mas fiquei com a impressão de ter sido enganado: em momento algum eu fora informado da opção de fazer eu mesmo a diagramação do meu livro.

A partir daí a situação começou a ficar constrangedora para mim, porque já haviam se passado dezessete meses desde o começo do processo, já haviam acontecido vários adiamentos e eu estava começando a passar vergonha com os meus amigos por causa do livro que nunca saía. Entrei em contato com o meu editor e lhe perguntei a razão da demora. Descobri então que eu precisaria, segundo ele, comprar no mínimo 50 exemplares do meu livro e que a cláusula contratual de disponibilização nas livrarias Cultura e Leitura, entre outras, só ocorreria depois de passar de 100 exemplares vendidos. Como haveria um festival literário em uma cidade próxima à minha, dentro de dois ou três meses, eu respirei fundo e comprei 100 exemplares para entrar nas livrarias e poder fazer meu lançamento. Mais tarde descobri que o meu amigo não precisara comprar nenhum livro e a sua obra entrar nas livrarias. Ele também teve capa laminada e usou fonte diferente da Garamond.

Os livros chegaram rápido, tão logo meu pagamento foi compensado. Era como se a gráfica estivesse pronta para imprimir, só faltando um sinal verde que não fora dado nos seis meses anteriores.

Meu lançamento até que foi bem sucedido. Vendi trinta e oito exemplares, fora os doze que doei depois. Fazer isso no interior é bem difícil. Mesmo assim, estou micando com 50 livros ainda na caixa.

Meses depois do lançamento entrei com contato com duas perguntas: em quais livrarias o meu livro fora colocado e como andavam as vendas. As respostas foram estranhas, cheias de cautela e agressividade ao mesmo tempo. A primeira resposta foi que não havia obrigação contratual de colocar os livros em nenhuma livraria. Depois eu chequei e vi que, de fato, não havia, nem no meu contrato e nem no contrato do meu amigo. A diferença é que o livro dele apareceu na Livraria Cultura e o meu não. O contrato também não falava de nenhuma obrigação de comprar, mas eu comprara mediante a promessa da entrada na livraria, e a promessa não fora cumprida. Me senti roubado. Meu livro nunca esteve em nenhuma livraria. A segunda resposta foi pior: o editor me disse que esperava que minha especulação fosse apenas para satisfazer uma curiosidade, pois a editora não paga direitos autorais, apenas recompensa o autor, com um exemplar gratuito de seu próprio livro a cada CENTENA de exemplares vendidos.

Resumindo tudo: mesmo quando a impressão inicial é boa, é preciso ter cuidado, porque há vários tipos de editoras amadoras que fazem trabalhos amadores e que frustram autores.

P. S. Provavelmente o editor dirá, se perguntado, que a obra do meu amigo é melhor que a minha e por isso "merece" as deferências. Acho essa uma resposta desonesta por duas razões: porque ele afirmou que minha obra era "merecedora" também, e por isso a selecionara, e porque é parte da atribuição de uma editora selecionar obras de qualidade para publicar, e não dividir os autores em currais.

Tenho plena consciência de ter sido tratado como um autor de segunda ou terceira classe na editora, o que só me revolta porque, o tempo todo, me foi dito que eu estava na primeira. E quando eu descobri que não tinha champanha no serviço de bordo e que o lanche era frio ele simplesmente ficou irritado e continuou com desculpas.

Agradecemos ao colega pela credibilidade demonstrada para com nossa página, enviando-nos mais essa denúncia para ser publicada.
Salientamos que não é política nossa alterar sequer uma vírgula dos textos que nos são enviados.

Entre em contato: litfanbr@gmail.com

2 comentários:

  1. Um relato que deve ser lido por nós todos que estamos neste barco. Acho que o início do texto é coerente em apontar que o autor não tem culpa se sua obra é "boa" ou "ruim". É mesmo do editor analisar a questão para o mercado.

    Quanto a prática abusiva relatada, o descaso, a diferenciação de autores, tudo é muito grave. O autor novo precisa se lembrar da premissa: "antes só do que mal acompanhado".

    Abraço.

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  2. Gostei muito do texto, fico satisfeito em ver que "dei o exemplo" e outros estão a denunciar essas Editoras "Profissionais"

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