Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Ajudem os autores nacionais a escrever literatura que preste!


Por Félix Maranganha.

A literatura recente no Brasil parece um misto de número de circo ruim com banheiro químico mal-assombrado. Tem suas peculiaridades, confesso. A maioria é divertida, e algumas são de causar indignação. Isso sinapsou meus neurônios esses dias: o acesso à internet, a democratização dos blogues, o maior acesso a pequenas editoras duvidosas e as adaptações mais recentes de best-sellers pro cinema tiveram o curioso efeito de, com tanta facilidade em publicar, todo mundo agora achar que é artista da palavra. Mesmo com a maioria da população esmagada pela educação precária e pelo analfabetismo funcional, todo mundo acredita que seus parágrafos péssimos são uma obra prima da escrita. Seria um fenômeno isolado e localizado, não fossem editores analfabetos funcionais editando livros de analfabetos funcionais e lidos e louvados por analfabetos funcionais. Essa é a parte que me indigna. Agora, a parte que me diverte.


Algumas vezes os escritores não entendem nada de literatura. Nunca leram Homero, mas dizem escrever a maior história de todos os tempos. Nenhum problema nisso, nunca li Guerra e Paz, mas nada do que escrevo é um marco divisório da arte. No máximo é uma marca d'água só visível sob certas condições. Mas acho divertidas as campanhas assistencialistas para que se ajudem os pobrezinhos dos autores brasileiros oprimidos pela tendência imperialista dos que leem o que querem ler, independente de sua origem, como é o caso da campanhaEu Leio Brasil,  deflagrada no twitter pela hashtag #EuLeioBrasil, e com uma página no Facebook, a campanha tem um bordão bem engraçado:


Eu leio Brasil, assinem a petição e ajudem os autores nacionais!


E estão envolvidos nela autores cuja qualidade não tive ainda a oportunidade de contemplar, mas cuja participação na campanha me desmotivou a buscar algo escrito por eles pra pelo menos desmentir minhas más expectativas. Claro, tive a oportunidade de verificar alguma coisa de Janaína Rico, o que quase me fez desistir de ler pelo resto da minha vida. Ah, as dicas de escrita de romances de Thayane Gaspar também me causaram um pequeno rebuliço no fígado, mas nada muito grave. Já estou medicado e me recuperando. Claro que seria trágico, não fosse cômico, como bem me deixa perceber o manifesto da campanha:

Eu leio Brasil



A literatura nacional pede socorro.


O que está acontecendo é que as obras brasileiras não estão recebendo o trato que merecem. Basta entrar em qualquer livraria para perceber a diferença de tratamento. Em destaque, apenas as obras que vêm de fora. Nas listas dos mais vendidos, nomes estrangeiros pipocam e somente de vez em quando surge uma Paula ou um Eduardo para diversificar.


Os marketings das grandes editoras apontam todos os seus canhões para 50 tons de estrangeirismo, enquanto o verde e amarelo fica ofuscado sob o cinza.


Ora, não podemos esquecer que para cá já vêm os best-sellers, testados e retestados no exterior, que já passaram por uma pesada campanha de publicidade.


Mas os daqui ficam relegados a segundo plano, sem que os leitores sequer tenham o direito de escolher se vão comprar ou não. A dinâmica é clara: o consumidor comum entra em uma livraria procurando uma capa que lhe chame atenção, ou uma história que se destaque no meio das outras. Impossível que um livro escondido no meio da prateleira ganhe a parada. Isso, quando pelo menos fica em um canto escondido na livraria, pois na maioria das vezes os títulos nacionais nem chegam às estantes das grandes redes.

Por isso, criei este manifesto. Longe de mim pedir para que as pessoas só leiam os nacionais. Adoro Marians, Sophias e Stephanies e quero muito continuar a lê-las. Mas quero chegar no shopping e ter o direito de escolha entre elas e as Vanessas, Lucianes, Leilas e Carinas. Ah, e Janainas também!


Vejamos. A literatura brasileira pede socorro? Óbvio que sim! Mas não pelos motivos apresentados no manifesto, mas no que escrevi mais acima: analfabetos funcionais escrevendo, editando, publicando e vendendo livros. Tamanha mendicância literária, como bem colocou Janaína Azevedo Corral, em um brilhante texto que pode ser lido AQUI, vem atingindo a literatura brasileira há vários anos. Ao meu ver, tem escritor confundindo prateleira de livraria com cuia de mendigo na praça.

Quando leio, não escolho o que lerei pela procedência, mas pela qualidade. Não verifico em catálogo se o autor é brasileiro ou americano, branco ou negro, homem ou mulher. Se eu fosse analisar sua escrita, ou escrever um artigo científico sobre eles, não veria problemas, mas não é informação relevante que ateste melhor ou pior qualidade de um livro.

A campanha, porém, centrou-se no fato de as livrarias não exporem seus livros em destaque nas vitrines. Peraê! Aí já é preguiça! Não chego na livraria como preguiçoso, que se centra nos livros mais evidentes empilhados e armados em gôndolas, compra e vai pra casa. Não sou leitor vislumbrado de shopping, sou frequentador calmo de livraria de esquina. Vou até a prateleira, pesquiso na internet, ando de livraria em livraria. O que me interessa são bons livros, e estou disposto a andar uma cidade inteira se possível pra comprar um. Se o livro for bom e brasileiro, ótimo. Se for bom e estrangeiro, paciência. O que não podem fazer é me obrigar a comprar um livro brasileiro e ruim só porque é brasileiro.

Fosse apenas a hashtag e o manifesto, eu acharia graça e ficaria na minha, mas ela acompanhava uma petição para lermos mais livros de autores nacionais. Como é que é? Se uma petição pública não tem valor legal nem pra tirar o Malafaia do CRP, o que faz ela pensar que terá força pra me obrigar a ler um livro de autor nacional? Todos os anos tem um nicho da literatura que chora suas frustrações e tenta sequestrar leitores e amarrá-los na cama. A mendicância literária de 2011 foi a Ficção Científica, a de 2012 foi a Literatura de Fantasia, e a desse ano é a chicklit. Simples assim. Todo ano tem um nicho em que os bons escritores apenas escrevem e ficam na sua, e os ruins esperam que alguma alma caridosa compre e finja que vai ler. Comprar livro ruim por causa de uma campanha dessas é como beijar a mão de quem lhe mata um ente querido, e verter lágrimas de Príamo na sequência.

Essas campanhas giram em torno de duas escleroses literárias básicas. A primeira é a mentalidade Bolsa-Escritor. A segunda é a confusão entre Escritores e Escrotores.

O primeiro buraco de poço é fácil de entender. Num país em que qualquer tropeço pretextua a carrapatização social sobre os outros, qualquer parasita econômico aprende que o melhor meio de se dar bem é não fazer nada de bom e criar meios pra continuar assim. Pensamentos correlatos estão na base do Bolsa Família. Em vez de ensinar e permitir ao povo que aprenda empreendedorismo e novas formas de conseguir renda pra sua família, o governo pune quem trabalha e controla a natalidade, e premia quem não trabalha e têm muitos filhos. Da mesma forma, os escritores. Em vez de aprimorar seu estilo, continuam ruins, vampirizando leitores ingênuos com campanhas do tipo "leiam autores como eu, do meu ramo, que em nada acrescentamos à literatura, mas queremos ser comprados".

O segundo problema é mais difícil de perceber. Há uma dupla caracterização do que é ser escritor em qualquer parte do planeta. De um lado, há os que escrevem pelo prazer de escrever, e do outro, os que escrevem pra comprar o carro do ano. Aos primeiros, chamamos escritores. Aos segundos, dou o nome de Escrotores. A caracterização foge da tradicional classificação dicotômica entre amadores e profissionais, cujos limites, ao meu ver, são difusos e imprecisos. Os que têm prazer em escrever são os escritores. Os que têm a necessidade de comprar o celular da moda com a venda de livros são os escrotores.

Lembro aqui que prezo pela qualidade, e que entendo que, seja lá amador ou profissional, queira seu livro em papel por uma editora grande ou num sarau underground da cidade, o que importa mesmo na literatura é tão somente a qualidade do que se escreve. Não falo aqui da qualidade do livro quanto à tipografia, à diagramação, à possibilidade de massificação ou à linguagem acessível ou inacessível, mas à qualidade inerente ao livro pelo simples fato de a Literatura ser uma forma de Arte. Por isso, acabo entendendo que a distinção não deve ser entre o escritor amador e o escritor profissional, pois são in(ter)dependentes, mas entre escritores amadores e profissionais e escrotores amadores e profissionais.

O escritor amador escreve pelo prazer de escrever. Tudo o que coloca em palavras é um texto que está em constante transformação, é arte. Como toda arte, é feita pra ser exposta, mas não necessariamente admirada ou vendida. Leitores existirão, mesmo que poucos, e o que importa no fim das contas é escrever pra realizar um sentimento estético ou experimentar modos de narrar. Seus textos, na maioria, não foram escritos para aumentar as vendagens das editoras, mas como uma ponte entre o que está no fundo da mente do escritor e o que está no fundo da mente do leitor. Escritores amadores aceitam críticas, mesmo que não concordem com elas. Como diz o próprio termo, ele escreve porque ama escrever.

escrotor amador é aquele que escreve sem nada entender de literatura. Ele não se preocupa com o que escreve enquanto processo de elaboração e fundamentação do estilo. Seu foco é o glamour, as festas, o status e os aplausos. Quase sempre recorre a editoras fajutas e a concepções de literatura bastante planas. Você o reconhece quando ele tem um ou dois livros publicados, mas sua qualidade não mudou de um pro outro. O pouco conhecimento em estilo e literatura o torna escravo de pequenas tribos urbanas literárias, ao que chamamosFandom. Ele se acha original, faz campanhas para ter seus livros lidos e preza muito mais pelo divulgar que pelo escrever (e são capazes de qualquer coisa pra divulgar, desde posar seminu em lançamento de livro até comer cocô de cachorro com chocolate pra dizer que "choca os parâmetros tradicionais da sociedade").

O escritor profissional é aquele que, de tanto fazer bem seu trabalho enquanto amador, e por fazer um trabalho amador acessível ao público, torna-se um bom investimento para uma editora de porte maior. É o amador que teve a sorte de poder viver daquilo que ama. Como o amador, ele ama escrever, e sabe que deve experimentar porque nenhum escritor nasce pronto e de estilo definitivo. Porém, o escritor profissional recebe sugestões da editora, aceita críticas de bom grado de seus leitores e seu desejo é somente melhorar mais e mais. Ele otimiza seu trabalho, revisa, corrige. Seu objetivo é publicar um bom livro. Como diz o próprio termo, ser escritor, pra ele, é uma profissão.

E há o escrotor profissional, que vive do que escreve, mas está tão apanelizado em pequenos pratos que não importa o quanto escreve ruim, mas o quanto é amigos de editor X ou escritor Y. Ele evoluiu dos escrotoresamadores assim como um digimon evolui de uma forma pra outra. Querendo ou não, o maior escrotor profissional hoje no Brasil é Paulo Coelho, um escritor péssimo, de estilo duvidoso e qualidade pífia, mas que consegue vender milhões de exemplares por vez.

Mas isso pra mim é divertido. Dou altas risadas quando vejo essas coisas nas redes sociais. Enquanto escritores passam sua alma pro papel, os escrotores nem mesmo sabem o que é uma alma. Leitores desavisados ainda não se aperceberam que boa literatura não é a qualidade alegada na capa, mas qualidade construída no miolo. E esses leitores se tornam escritores. Resta-me, como todo sem-noção, gargalhar sobre a lápide da literatura brasileira. 

O colega Maranganha nos cedeu seu texto para que, honrosamente, o publicássemos em nossa página.

Entre em contato: litfanbr@gmail.com


3 comentários:

  1. Sou escritor amador, escrevo porque gosto e me felicita saber que pessoas possam compartilhar minhas idéias e sensações.
    Tenho um livro publicado por uma editora, por ter vencido um concurso literário, sem ter para isso gasto sequer um centavo.
    Em meu romance, deixei fluir meus sentimentos, buscando com a sinceridade do que escrevia, contribuir de alguma forma para quem tivesse a oportunidade de ler meu trabalho.
    Concordo com tudo que você escreveu acima.
    Parabéns.

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    1. Valeu, Maurício,

      mas, antes de você concordar, lembro-te que no passado já fui exatamente o que critico aqui.

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  2. Olá!

    Concordo com grande parte das coisas que foram ditas no seu texto. Algumas ideias prefiro apenas respeitar - como merece ser respeitada toda e qualquer opinião bem formulada - e dispensar.
    Seu texto me fez refletir um bocado sobre coisas nas quais não tinha pensado antes. Creio que foi válido por ser uma crítica (embora tenha achado um pouco ofensiva por citar nomes) baseada em um conjunto de ideias bem desenvolvidas.

    Eu poderia ficar aqui tecendo comentários particulares sobre cada ponto do seu texto, mas, sinceramente, prefiro guardar minhas reflexões e desenvolvê-las, agradecendo apenas a oportunidade de ler mais uma opinião sobre uma temática tão complicada.

    P.S.: Tenho lido o blog e acho engraçado o modo como os autores comentam falando sobre si mesmos, como se quisessem se justificar ou dizer que não fazem parte do que está sendo criticado. Acredito que isso é meio desnecessário, afinal, cada um sabe o que faz. Se estiverem fazendo algo pelo qual se envergonhem, é melhor mudar o comportamento do que sair se justificando para quem pouco se importa. A vida é isso mesmo, um grande processo de aprendizagem. Tenho aprendido muitas coisas com este blog. Acredito que o trabalho de vocês está valendo a pena por causa das reflexões que estão trazendo. O importante não é concordar, é refletir.

    Abraços!

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