Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

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Por Eduardo Jauch.



Campanha no Facebook: Apoio para a Literatura Fantástica Nacional
Recentemente, testemunhei uma pequena polêmica no Facebook. Tudo começa com uma campanha pedindo ajuda para a Literatura Fantástica Nacional (foto acima). Por si só, isso seria irrelevante. Não foi a primeira vez que fizeram algo nesses moldes, nem será a última. E quando o assunto é literatura, seja qual for o gênero, pedir às pessoas que comprem livros simplesmente não resulta.
A coisa poderia ter ficado por aí, mas não foi assim que aconteceu. Confesso que não esperava a reação que essa campanha despoletou, mas é o ser humano, muito mais que o futebol, uma caixinha de surpresas.
De forma muito resumida, o que aconteceu foi que algumas pessoas resolveram dar voz à sua insatisfação (imagens abaixo) com a tal campanha (e não só). Um texto que critica essa campanha pode ser encontrado aqui. Se você tiver interesse em ler, muitos comentários foram feitos, a maioria no Facebook (aqui, aqui e aqui), mas muito mais gente deu os seus pitacos, ainda que nem todos tenham dado “nomes aos bois”. Sinto-me compelido a avisar que nem todos os comentários podem ser classificados de “serenos”.

Não vou entrar no mérito da polêmica. Não vale a pena. Mas vou usar esta polêmica para tecer alguns poucos comentários sobre o universo da “Literatura Fantástica Brasileira” (LFB), do ponto de vista de leitor e de alguém que observa as coisas “de fora”, focando em apenas um elemento: o escritor.
Há bons escritores nacionais de literatura fantástica, daqueles que a gente lê e fica ansioso para ler a próxima história. Mas são poucos. Mesmo entre aqueles que são publicados por editoras “sérias”, que supostamente fazem uma triagem e só publicam os melhores, a qualidade não é algo fácil de encontrar. E isso assusta.
Escrever bem não é só uma questão de criatividade, ainda que isso seja muito importante. Há que ter uma habilidade excepcional na utilização das palavras. Não são todas as pessoas que possuem essa capacidade, ainda que, acredito eu, qualquer pessoa que trabalhar muito, e corretamente, pode vir a tornar-se um escritor extraordinário.
Para escrever bem é preciso, antes de mais nada, ler. Não apenas o gênero em que se escreve. Quem faz isso terá muita dificuldade em se desvencilhar dos clichês típicos do tema. É preciso ler de tudo, dos grandes clássicos aos obituários dos jornais. A leitura, quando feita de forma crítica, abre horizontes, mostra técnicas, dá ideias. A leitura para passar o tempo é apenas isso: tempo perdido. O escritor também pode ler para passar o tempo, claro, mas não deve fazer isso com muita frequência. Isso vale ainda mais para o escritor brasileiro.
Muito sinceramente? As vezes parece que no Brasil há mais escritores do que leitores.
Mas ler não é suficiente para transformar alguém em um bom escritor. Também é preciso escrever muito. Acontece que escrever, assim, aos borbotões, sem uma avaliação crítica, sem tentar melhorar, não adianta. Quando dizem que o cérebro precisa de exercício, não é como o seu bíceps que cresce fazendo o mesmo movimento repetidas vezes. Ele precisa pensar e perceber, não de trabalhar de forma automática. Antes de escrever com fluidez é preciso escrever devagar, sopesando cada palavra, verificando se a palavra escolhida é a certa para aquele lugar, se cria o efeito desejado. É preciso atenção ao fato de que escrever muito de forma alguma significa que se deve publicar tudo o que você escreve, mesmo porque, inevitavelmente, você acabará por encontrar alguém disposto a publicar até mesmo um trabalho “ruim”, e isso vai te prejudicar muito mais do que ajudar.
Muito importante é que o escritor perceba que escrever não á fácil. Escrever exige estudo. Exige que se aprenda a usar corretamente a gramática, mesmo que seja para mandá-la à sua vida depois. Exige que se conheça a teoria da escrita, os tipos de narrador, como criar um clímax, como separar aquilo que deve ser contado daquilo que deve ficar subentendido. Conhecer os diferentes estilos, a história da literatura, seus principais expoentes. Conhecer a sua arte. Conhecer as suas ferramentas de trabalho.
Acontece que, no Brasil, por falta de estrutura e por conta de um mercado diminuto, além de outros fatores, não acontece o que acontece em países como a França, a Inglaterra e os Estados Unidos. No Brasil, ao contrário do que acontece nesses países, o escritor, principalmente o escritor de fantasia, não estuda. Não procura formação séria. Não faz um curso universitário relacionado à escrita. Nos países que eu citei, os bons escritores, usualmente, tem formação. Estudaram para serem escritores. Não é obrigatório fazer isso, mas fica muito mais difícil, exige muito mais esforço da pessoa, para chegar ao mesmo nível. Para piorar, a maioria dos escritores brasileiros não tem a possibilidade de viver da escrita. Não me refiro apenas às suas histórias, mas ao ato de escrever no geral: artigos, ensaios, revisão, etc. A maioria tem empregos comuns (ou nem tanto), mas que não estão relacionados com essa arte. E tem famílias. E tem que se divertir. Quanto tempo sobra para estudar? Quanto tempo sobra para desenvolver suas habilidades de escritor?
A falta de tempo que aflige o escritor nacional de fantástico acaba se tornando ainda pior, quando, instigado pelo número cada vez maior de coletâneas, passa a escrever para várias, as vezes dezenas, em um único ano. Isso, infelizmente, é outra razão para a baixa qualidade que tenho visto nas obras nacionais. Mesmo quando o escritor tem a capacidade de escrever acima da média, a necessidade de escrever muito em tão pouco tempo é fatal.
E por quê? Por que fazem isso? A única resposta que eu encontro é um desejo enorme de ser publicado. Mas o que esse escritor não percebe é que ser publicado e ser lido são coisas diferentes e, quanto mais material de baixa qualidade ele publica, maiores as chances de um leitor topar com um texto medíocre em uma coletânea. Na literatura, como em quase tudo na vida, a primeira impressão é a que fica.
O que o escritor precisa, de forma geral, é aprender a ser profissional. Em todas as áreas, no contato com os leitores, na forma como se expõe, na lida com as editoras. Mas principalmente, ele tem que ser mais profissional na forma como trabalha, na forma como escreve. É o seu trabalho enquanto escreve que será a base de sua carreira literária. Se esse trabalho não for bem feito, todo o resto acabará por desmoronar.
Infelizmente, o escritor de fantástico, no Brasil, ainda não percebeu isso tudo, e isso se reflete negativamente nas obras que andam por aí. Há exceções, claro, mas a exceção não faz a regra e, para atrair leitores, a média é mais importante do que os extremos. Quanto mais bons escritores, mesmo que não sejam extraordinários, maiores as chances de desenvolver o público de literatura fantástica nacional, abrindo as portas para mais novidades, para mais escritores, para o cinema, até.
Portanto, sim, também sou daqueles que pensa que é preciso muito mais competência e profissionalismo por parte dos escritores nacionais do que a que eles tem mostrado hoje em dia. Não que por si só isso resolverá o problema da falta de leitores. Mas sem isso, qualquer campanha pedindo apoio para a literatura fantástica é irrelevante.
Quando isso acontecer, quando nossos escritores alcançarem padrões mais elevados na arte da escrita, haverá muito mais gente compartilhando e incentivando seus amigos a lerem. E essa é a única forma sustentável de manter a literatura. A melhor propaganda são clientes satisfeitos, e o leitor é um cliente, que não volta se ficar insatisfeito.
Se você é escritor, talvez possa estar pensando que eu estou exagerando, que não é bem assim, ou, pelo menos, perguntando a si próprio se é realmente preciso tudo isso para ser um escritor acima da média. Não. Claro que não. Basta você ser um gênio.
Você é?
Acompanhe o blog do autor: http://escrevivendo.terrasdejauch.com/
Entre em contato: litfanbr@gmail.com

8 comentários:

  1. Um dos poucos textos sensatos deste blog. Merece ser lido, parabéns ao autor.

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  2. Texto consciente e esclarecedor que nos ajuda a entender o papel do novo autor na literatura de hoje. Acho também que é preciso estudar e se empenhar muito para ser escritor. Ser lido é consequência.

    Abraço.

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  3. Tendo acompanhado (meio por cima, tudo bem, mas acompanhei) a história, acho que realmente esse é um dos poucos textos sensatos deste blog. Não é um texto que ofende, ou que tenta se mostrar incrivelmente inteligente, ou superior. É apenas um texto sobre a literatura fantástica, e sobre aspectos dela que nós temos de dar atenção.
    Todos esses problemas existem e eu concordo com tudo que foi escrito, principalmente por eu mesmo ser um escritor. Parabéns ao autor do texto!

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  4. Esse Gerson Balione, por acaso é parente da Samanta Squillante Balione que apagou os comentários feitos em outra postagem?
    Ah tá.

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  5. "Para escrever bem é preciso, antes de mais nada, ler. Não apenas o gênero em que se escreve. Quem faz isso terá muita dificuldade em se desvencilhar dos clichês típicos do tema."

    O trecho acima, para mim, resume tudo. Apenas um entre meus 5 ou 10 livros favoritos pertence ao gênero que escrevo. E é preciso ler muito, e de tudo, além de saber identificar os méritos de cada forma de narrativa, de cada boa ideia mesmo de um gênero que não o agrade. Aquilo pode ser a chave para você inovar.

    Publicar sem inovar, para mim, é puro desperdício. De papel, de dinheiro, de tempo.

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  6. Por acaso Esse Gerson Balione aqui é Marido da Samanta sim. Não sei o que ela escreveu, portanto não posso opinar sobre a tal postagem, mas vou apurar. Por que, algum problema? Se ela apagou dever ter tido seus motivos. Engraçado, acho estranho certas atitudes deste blog. O fato de ela ter vínculo com minha pessoa muda algo? Você citou o nome dela aqui com qual intuito. Este post do Eduardo Jauch é muito sensato, espero que vocês não o estraguem com comentários e citações desnecessárias. Prestem atenção nos posts acima. Espero que isso acabe por aqui e que apaguem o post citando o nome dela. Amigavelmente, Gerson Balione.

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    1. Não caro Gerson, não muda nada.
      E, também, não, o comentário não será apagado.
      Ok?

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  7. Texto muito coerente e que, infelizmente, condiz com a realidade brasileira. Como já escrevi num comentário anterior neste blog, tudo no universo é energia que vibra e, sendo assim, fica muito difícil autores e leitores vibrarem numa frequência alta, haja visto em que situação chegou a Educação neste pais! Não podemos incorrer na generalização, pois temos escritores (e artistas em geral) incríveis e maravilhosos que conseguiram dar a volta por cima num habitat tão pouco fértil como o nosso. Parabéns, 1 abraço

    the Osmar.

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