Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

A mendicância literária.


Por Janaina Azevedo Corral.

Eu evito postar coisas no Facebook. Evito mesmo. São inúmeras as coisas que, naquela rede social, me irritam – afinal, se o Facebook fosse um reflexo da realidade todo mundo aqui seria lindo, fiel a suas crenças, verdadeiro, odiaria falsidade, amaria os animais, teria posições políticas bem definidas, seria justo e batalharia pelo que é certo (mas como o mundo continua uma merda, a real é que aqui cola a política do “Faça o digo – nem pense em fazer o que eu faço…”).
E uma dessas coisas que me irrita profundamente é essa MENDICÂNCIA LITERÁRIA, que vejo na maioria dos autores que me adicionaram ao longo do tempo – e em algumas editoras também.
Sabe quando você está passando na rua e passa um mendigo pendindo dinheiro? Alguns deles, especialmente no Centro da Cidade de São Paulo, ali na região da Sé, da Luz, etc., te colocam numa posição em que você é OBRIGADO a ajudar:
1) Se você fala que não tem, eles te dizem que você está mentindo e não quer ajudar;
2) Se diz que não quer ajudar, te chamam de grosso e xingam até a 15ª geração da sua família;
3) Se dá poucas moedas pro cara ficar calado, ele te chama de FDP muquirana.
Ou seja, a menos que você chute o balde e mande o cara a merda, e deixe ele com medo de você – pelo que você ainda corre o risco de ser agredido – ele não te deixa em paz.
É quando você passa a ser vítima de uma violência silenciosa: o cara já te xingou e te agrediu, mas foi embora, mas aí todas as pessoas que já estiveram na mesma situação que você, e provavelmente tomaram as mesmas atitudes e sofreram as mesmas agressões verbais, te olham como se a culpa daquele problema social fosse sua – afinal você tem uma boa vida, dinheiro, carro, casa, dorme numa cama quentinha, enquanto aquele pobre coitado passa fome, usa drogas por que está na rua, então, o que custa ajudar, não é? Se você está acompanhado quando isso acontece, você corre e se justifica: “eu não sei se o cara vai usar esse dinheiro pra comer mesmo, dá que ele vai beber e se drogar e eu estou piorando a situação dele?” E aquilo apazigua a angústia gerada pela crítica coletiva que você sofreu e em alguns minutos você esquece.
Mas a sua consciência no fundo, bem no fundo, não está nem um pouco apaziguada. Você se sentiu violado, agredido.
A real é que a nossa sociedade desenvolveu um conceito derivado das malditas práticas cristãs de caridade de que você é OBRIGADO a ajudar. Afinal, se Deus foi misericoridioso e te abençoou com fartura, emprego e tudo mais, você tem obrigação de ajudar os menos afortunados. Bom, por conhecimento de causa, afinal eu convivo dentro de uma religião que prega a prática da caridade eu gostaria de dizer que isso é um MONTE DE BOBAGEM: Caridade faz quem pode, não quem quer. Eu definitivamente não sou obrigada a ajudar alguém por que a pessoa ou o grupo a minha volta acha que eu tenho de ajudar. E infelizmente, para minha infelicidade, vou perder uma tonelada de “amigos” no Facebook pelo que vou dizer.

Os autores (e algumas editoras) de literatura fantástica não estão muito diferentes dos mendigos da Praça da Sé: parece que somos “obrigados” a ajudá-los, ou seremos linchados por conta de nossa “ignorância”. Ontem li numa imagem publicada pelo Perfil Literatura Fanástica:

"PRECISA-SE 

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Além dos erros de português e discurso que a pessoa obviamente não percebeu que cometeu (6 pelo que pude contar), o que raios essa pessoa esperava alcançar com esta mensagem?
Eu me senti sendo abordada por um mendigo literário: “Compra o meu livro, vai, por favor, só um exemplarzinho…”

Contudo, o Mendigo Literário é pior do que o cara que tá na rua. O cara que tá na rua muitas vezes não escolheu estar ali. Muitas vezes, ele te pede mais do que uma esmola, ele te pede ajuda, mas ninguém estende a mão.
Agora, o autor-mendigo escolheu se colocar na cômoda posição de culpar os outros por seus males, de pedir ajuda para se promover, quando na verdade, deveria estar pedindo ajuda para melhorar ou, ainda, ajudar a melhorar seu grupo, sua comunidade, seu mundo, com ações efetivas, sem palhaçada ou frases de impacto. Ele quer te fazer perpetuar um status quo que só prejudica a comunidade de leitores, o incentivo a leitura no Brasil e a ele mesmo. Ele quer que você acaricie o ego dele e diga o quanto o livro dele é bom. E eles tem outros amigos autores-mendigos que escrevem resenhas sobre o livro dele – e as resenhas não são realmente resenhas, são pequenos ensaios de exaltação uns aos outros. Ninguém sabe, de fato, o que é uma resenha. Mas todo mundo publica resenhas em seus blogs. Também existe a editora-albergue: ela acaba sendo o abrigo do autor-mendigo, pois ela cria uma estrutura na qual, caso o autor faça parte de seu quadro, ele se mate pra divulgar o próprio livro, quando isso é um papel da editora-albergue, uma função comercial dela. Escritor escreve, editoras publicam e vendem. Por que o escritor não tem que ficar correndo atrás de vendas, ele tem que se dedicar a se especializar, aprender, estudar, pesquisar e ESCREVER.
Pode parecer papo de mensagem automática do Metrô, mas não é: ao invés de dar esmolas, ajude entidades assistenciais idôneas. Ao invés de pedir para os seus amigos repassarem mensagens de impacto, criar blogs para essas mensagens e campanhas fajutas, junte-se com eles e, mais do que fazer Clubes do Livro, e leve esses clubes, com professores e artistas dispostos , para dentro das escolas particulares e públicas (afinal, se você teve mais de 160 compartilhamentos em sua mensagem, será que não consegue achar 5 ou 6 pessoas dentre estas dispostas a fazer algo de verdade, além de clicar em compartilhar?). Forme um grupo de contação de história e interprete trechos das SUAS histórias. Incentive a leitura entre NOVOS lietores, não entre seus amiguinhos do Facebook.
Há escolas públicas que PROCURAM por este tipo de atividades mas são METODICAMENTE enxotadas pelos autores – os mesmos que dizem que a leitura não é valorizada no Brasil.
Sabe quantas escolas eu visitei por conta dos meus livros – e olha que eles nem são de ficção hein? Ah, se livro de não-ficção não conta, pergunta pro Vianco, ou pro Ziraldo, ou pro próprio Paulo Coelho. Inúmeras. Por que crianças e adolescentes são os maiores consumidores de livros no Brasil. E é ali que você cativa o leitor que vai te ler na vida adulta.
Mas por favor, faça algo de útil, não Mendicância Literária e Pastelão. Procure profissionais de marketing, educação e comunicação e não despreze o trabalho deles, achando que pode fazer tudo sozinho, ou que o seu grupinho pode fazer melhor que um cara que estudou a vida inteira para fazer isso.
E, você Leitor-Apoiador deste tipo de mendicância, seja inteligente e consciente, quando você compra um livro de um Mendigo Literário por que se sentiu coagido por conta de uma mensagem de impacto destas, ou talvez por que espera um dia publicar um livro e que “façam o mesmo por você”, você apenas o/se acomoda a:
1) reclamar da vida e dizer que no Brasil a leitura não é valorizada;
2) fazer com que, a cada livro ruim editado, mais e mais Mendigos Literários surjam;
3) que autores ruins continuem publicando, sem procurarem melhorar, por que acreditam que “estão abafando”;
4) que autores realmente bons se percam num mar de publicações ruins, por que “todo mundo tem de se ajudar”.

Resumindo: Não ajude o Mendigo Literário. Não ajude por se sentir obrigado a ajudar. Ajude um autor por que será um prazer ler as novas publicações daquele cara – e ajude levando o cara a novos patamares de qualidade e a leitores novos, não aos amiguinhos do Face.

E você, autor, que quer novos leitores: cultive-os, cative-os e melhore sempre.
Sabe aquela gramática esquecida no fundo da sua prateleira? Dá uma lidinha nela. Aposto que tem coisas lá que você ainda PRECISA aprender.
Acompanhe o blog da autora: http://janainacorral.com.br

Entre em contato: litfanbr@gmail.com


2 comentários:

  1. Parabens pela coragem. Mta gente queria dizer isso
    Mas, saiba que vai despertar a raiva de muita gente.

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  2. É complicado pra quem está começando. Você fica sem saber o que fazer. Eu não curto esse lance de pedir que comprem meu livro, mas divulgo (se não divulgar, como vão saber de sua existência, né?). Não faço SPAM nos murais de amigos ou do Skoob, faço no meu mural. Eu disponibilizei capítulos completos do meu trabalho no meu blog, para que as pessoas tivessem a oportunidade de decidir, logo nas primeiras páginas (são 4 capítulos) se aquilo que estão lendo vale a pena ou não. Não sei se foi uma boa tática, mas... no momento não dá pra contratar um profissional (juro que adoraria).

    Parabéns pela matéria.

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