Literatura Fantástica Brasileira

Literatura Fantástica Brasileira

Ofícios: sobre heróis e a literatura fantástica.



Por Rafael de Andrade.

A vida prática, esta que comemos feijão e arroz se diferencia dos momentos em que o nobre Conde Willmot degusta um grande pedaço de carne servido por uma cortesã inglesa do século 15. Esta vida prática, vivida de instante em instante, não é marcada pelo compasso da pena ou dos versos, é levada de passos em passos até a morte. Nascer, crescer, reproduzir, morrer.
E devemos adicionar: trabalhar, ser escravizado, reproduzir o discurso, sonhar um pouco na juventude e por fim, se conformar com a inexorável verdade de que o mundo é assim “mesmo e ponto final”. Se conformar é o verbo que vem antes do morrer, ou vem em um conjunto só.
E assim podemos falar sobre a grande maioria dos indivíduos, que são sujeitos históricos (diria Weber, depois Freire, e antes e depois uma gama de pensadores), mas que são apenas engrenagens do trem do movimento da história. São peças de reposição dentro da engrenagem do mundo, ou em outras palavras, são exército de reserva.
Se esta é uma perspectiva sociológica e a sociologia é mãe e filha do mundo moderno, um exemplo cabe nesta discussão. E não apenas um exemplo, é uma perspectiva para compreender esta forma de organização social.
Primeiro ponto. A literatura que era difundida em grande escala nos grandes centros culturais era chamada de “romance de costumes” onde o grande herói era o individuo dono de suas capacidades e mais, de seu destino. Estes romances fizeram sucesso, por seu conteúdo e pela produção em série (menos elaborada que a nossa) destes produtos culturais: o romance deixou de ser produto da elite para ser leitura de mais alguns, mas nunca de todos.
Este destino era composto pela recompensa (riqueza, saúde, a mocinha) e pela sua contraparte, o vilão. Nesta categoria podemos enquadrar Bram Stoker e seu Drácula (que é o vilão ansioso pela mocinha), o inexorável destino de todo herói épico, o de vencer o vilão no final. Obviamente, não creio nesta categorização das produções artísticas daquela época enquanto uniforme. Sempre há uma ruptura.
E o grande ponto desta ruptura é o surgimento dos grandes romances históricos, entre eles Guerra e Paz, e Leon Tolstoi e Ivanhoé de Sir Walter Scott. Nesta nova forma de pensar o homem, o herói é um individuo levado pelo destino como um barco levado pela maré. Sua trajetória não é composta por ele enquanto sujeito dono de sua história, mas as forças sociais e os grandes fatos históricos o forçam a tomar destinos que não planejava.
Esta é uma forma. A terceira forma de inicia com Baudelaire. Em seu poema “A Uma Passante”, o poeta maldito começa a apresentar uma nova perspectiva para o sujeito, para o herói romanesco. O homem é um ser perdido na multidão, a multidão o forma, mas ele perde seu rosto se tornando um vulto do que era antes. O leitor pode perceber a diferença: do herói dono do destino, ao tocado pelo destino ao imerso na multidão.
O que pode-se afirmar é que ele se esvanece (como Berman) ou se liquefaz (como Baulmann) na multidão. Nesta, o homem ainda existe na forma do professor, da prostituta, do trabalhador, do pobre que sorri ao casal de ricos amantes, ele é um dançarino como em Sarrazine de Balzac, ele até possui nome e sobrenome, mas ele já é diferente.
Uma quarta forma é aquela apresentada por Dostoiévski e Kafka, dentre outros. O herói do romance desaparece para se tornar um espectro, ele fora engolido pelas estruturas do capital e pela mundialização crescente (para usar um conceito de Renato Ortiz): o mundo expande as fronteiras, visando engolir todas as identidades e transformando os homens em consumidores.
Nesta perspectiva que surge o homem do subsolo e o homem ridículo. Um torna a ação do mundo dinâmico algo ridículo, de homens práticos, de ação e o outro ironiza o mundo do capital a partir de seu sonho com um mundo sem estas crenças, uma perfeição possível sem a contaminação do próprio homem.
É nesta perspectiva que surge Gregor Samsa, o inseto monstruoso de Kafka. Que é apenas um inseto morto pela família, por não trabalhar, por não ser o que Hermann Kafka deseja, um homem forte e trabalhador. E ainda nesta perspectiva que surge O Estrangeiro, de Camus. Não há nenhuma raiz, nem mesmo familiar, que prenda este estrangeiro de si mesmo. Sei que apresento análises “por alto” sem me aproximar dos pormenores, mas são exemplos do que pretendo apresentar.
E herdeiro de tudo isso está senhor Krauze, de Caldas. Está a poesia de alguns madeiristas e ironizando tudo isto está Macunaíma, o sem caráter. O capitalismo conseguiu tocar a tudo com sua ideologia (conceito de Marx, conjunto de idéias e vontades de um grupo, simplificando) dominante. O sujeito desaparece para se tornar consumidor, sendo aquilo que compra e o que pode comprar. Do casamento à educação, o capitalismo precisa de consumidores e de um exército de reserva, todas as instituições foram tocados por esta forma de ver o mundo.
E a literatura é uma representação disto. O senhor Krauze é um exemplo disto, longe do trabalho ele é como um rato que anda em duas patas, mas é humano perguntando: o que é ser humano?
Estas formas do herói romanesco (ou do não herói) foram pensadas por teóricos, sendo o que possuo mais contato, Lucien Goldman, sociólogo marxista. E esta foi uma introdução ao que se pretende apresentar.
Dentro desta perspectiva, a literatura fantástica trás um misto de heróis. Dotado de super poderes, a personagem central desta forma de literatura enfrenta as mudanças da realidade e ao mesmo tempo o faz com outra perspectiva. Ele não é mais um “sujeito perdido” na sociedade, ele se encontra em outra sociedade (vampírica, lupina, mágica) e nela se transforma num herói capaz de realizar mudanças naquela estrutura.
Assim como nos romances de costumes, o herói da literatura fantástica é aquele que recebe uma recompensa no final, que pode ser a liberdade de seus desejos de fome ou até mesmo a mocinha e sempre enfrenta o vilão, que pode ser sua besta interior ou alguém na hierarquia superior, celestial ou infernal.
Daí se pode pensar a fórmula do sucesso de algumas produções da literatura fantástica. O leitor, que muitas vezes está encarcerado nas estruturas do capital, é aquele que se projeta no herói vencedor, que muda sua vida a partir de um confronto. Voltamos ao sucesso dos romances de costumes: se antes os jovens pensavam em ser marinheiros destemidos de nossa majestade, hoje eles pensam em ter super poderes, em voar.
Esta forma de encantamento só é possível neste mundo diferenciado, visto que o mundo em si está desencantado. Fadas e vampiros são tomados como simples ficção e sobrevivem como tal, não estão mais à espreita nas florestas (apesar de que ainda há uma parcela que encanta o mundo com estes seres).
Se tem muito o que se discutir nesta relação. Este é apenas o primeiro passo para esta reflexão sobre literatura fantástica e sociedade. Este é um texto de apontamentos, de perguntas em forma de afirmação, alguns leitores perceberão. Um texto jovem de um inexperiente pensador em início de carreira.

[1] Este texto não é acadêmico e não tem esta intenção. As citações aqui apontadas são parte de minha construção enquanto pensador da literatura enquanto objeto-prática. Esta leitura me levou a aproximar-me de teorias acadêmicas sobre a literatura e de fato, ao meu modo, tento trabalhar com elas. Apesar de ter acesso as referências aqui citadas, escolhi deixá-las enquanto pano de fundo para o que, de fato, quero dizer. Este texto é um pequeno ensaio de um escritor e cientista social. Se fosse um trabalho acadêmico de um cientista social escritor, a discussão teria outro formato.
[1] Cientista Social, pesquisador de sociologia da arte. Co-Editor da Revista de Artes Expressões, onde mantém uma seção chamada “Literatura em Rede”.

Entre em contato: litfanbr@gmail.com


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